Mês: Janeiro 2018 (Página 1 de 2)

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Mônica Bastos é Gente de Far

Resolvi ver o que estava reservado para mim. Fiz um estágio na Fundação Oswaldo Cruz e foi que eu comecei efetivamente a me encontrar.

Desde que entrou na Fiocruz, no curso de iniciação científica, Mônica mantém uma fidelidade a instituição. É igual amor de mãe. Falar da Fundação faz os olhos da pesquisadora marejar e, neste instante, ela começa a navegar em suas memórias lembrando dos tempos idos de descobertas, ensinamentos, vivência e realizações. São tantas experiências que vale a pena contar algumas. Conheça um pouco da história de Mônica Bastos.

A pequena médica virou uma grande pesquisadora

A engenheira química, Monica Bastos, graduada pelo Instituto de Química da UERJ, passa horas no laboratório de Síntese trabalhando em vertentes que levem a descobertas de substâncias bioativas para várias doenças como Câncer, Aids, doenças negligenciadas (Malária e Doença de Chagas) além de realizar estudos na direção da engenharia reversa de fármacos.

– Eu lembro que muito pequena eu dizia que eu seria médica. Mas, eu tive uma experiência ruim dentro de um hospital, aí eu decidi não ser mais médica. Quando comecei a fazer o curso de Engenharia Química, achei que não era para mim. Então, fui fazer uns estágios na polícia federal, na parte de perícia. Não me adaptei. Era muito metódico e repetitivo. Acabou que parei em um estágio na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com a Drª Núbia Boechat.

 

Na realidade, penso que o trabalho aqui associou tudo o que eu gostava: saúde e química. Então, eu me encontrei realmente quando cheguei na Fiocruz.

 

Monica Bastos se preparando para entrar no Laboratório de Síntese

A importância da Fiocruz na carreira
– A Fundação Oswaldo Cruz para mim tem duas principais representações: a primeira é que foi aqui que eu aprendi tudo o que eu sei. A segunda é que, de uma maneira geral, a Fiocruz é uma fonte de saber. A gente doa conhecimento para quem está aqui dentro e que vem com esse intuito de aprender. Mas, também transferimos essa sabedoria para uma população que teoricamente é leiga de assuntos e fatos importantes e relevantes. Eu considero que a Fiocruz é o berço de ciência desse país. É uma instituição de excelência, que merece muito respeito porque, aqui dentro, tem gente muito boa no que faz em todas as áreas. Tanto pesquisadores quanto médicos estão preparados para responder questões que aí fora não conseguem te responder.

Depender de resultados faz com que o trabalho da pesquisadora não seja rotineiro
– A cada dia a gente está em um processo para descoberta de um novo fármaco ou para o desenvolvimento de um fármaco que já está no mercado. São desafios diferentes. Para uma nova descoberta, precisa-se de persistência, já que você pode estar no final do processo de uma substância e pode acontecer uma reprovação. Aí, tudo tem que voltar para o laboratório para ser melhorado e repensado. O desenvolvimento, que é o que a gente chama da engenharia reversa de fármacos que já estão no mercado, é um desafio também porque, às vezes, você implementa uma metodologia que já está escrita na literatura e que foi muito eficiente, mas, para você aquela metodologia não funciona. Aí, tem que descobrir e implementar novas metodologias para produzir aquele fármaco.

A necessidade de se produzir algo com um custo acessível
– Não adianta colocar em um processo de síntese uma coisa que é muito cara, porque vai aumentar o preço do medicamento final. O preço final tem que atender a nossa população.

As experiências em Farmanguinhos
– Foram muitas as experiências dentro de Far. A implementação do programa de Aids no Brasil foi a mais marcante. Nós trabalhamos muito. Os medicamentos chegavam aqui no Brasil a um preço inacessível porque estavam sob patente, mas as pessoas estavam morrendo e o governo brasileiro, naquela época, queria comprar aqueles medicamentos. Aí, o que acontecia muitas vezes, é que a gente tinha que desenvolver o processo de como aquele fármaco era feito. Então, além de desenvolvermos, fazíamos rapidamente a síntese do insumo para fazermos o levantamento de quanto era o custo daquele processo, e se era ou não compatível com o preço. Com base nisso, fornecíamos subsídios para uma negociação do Ministério da Saúde com as indústrias farmacêuticas visando a redução de preços.

Ficávamos dentro do laboratório dia e noite porque tinha prazo para entregar o processo para o Ministério da Saúde.

Ás vezes, as leituras são feitas nas áreas externas do campus Manguinhos

O lugar de refletir
– Na verdade, eu quase não saio do meu espaço de trabalho. Sou ratinha de laboratório. Eu almoço e volto logo para o batente. Mas, quando eu saio, um lugar que eu gosto muito de ficar no campus é perto da Tenda da Ciência. Lá tem um jardim com um banco imenso. Gosto de ficar sentada olhando a paisagem, o laguinho, a ponte. Quando posso, paro ali para pensar. É um lugar bonito.

O prazer no trabalho
Eu sou muito suspeita para falar do meu trabalho porque eu gosto muito do que faço. O meu maior prazer é ver aquilo tudo que a gente contribuiu sendo implementado. Ver os alunos se formando e encontrando com a gente como profissionais de sucesso dentro da Fiocruz ou em outros lugares é muito gratificante. Nós, como pesquisadores de Farmanguinhos, somos chamados para avaliarmos projetos fora de Far. A gente avalia, por exemplo, publicações de revistas internacionais. Além disso, fazemos avaliação junto a órgãos de fomento como Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), que é uma instituição onde eu atuo bastante. Isso tudo é muito prazeroso.

A importância de Núbia Boechat no desenvolvimento profissional
– Tudo que sei foi Núbia que me ensinou. Em termos de valores de trabalho, de como se conduzir um laboratório, de como orientar um aluno, de como escrever dissertação, enfim, tudo o que eu aprendi foi mediante ao que ela passou e vivenciou na vida. Todas as experiências vêm dela. Nós dizemos que somos um pouquinho cria dela porque até algumas maneiras de conduzir as situações é muito semelhante. Ela é uma pessoa que jamais conseguiremos esquecer. Sempre contribuiu com a nossa formação e é responsável pelo que a gente sabe até hoje. Ela faz parte da nossa vida de uma maneira muito fixa. O lugar que eu for no mundo eu sempre vou tê-la como alguém da minha família. Por isso eu digo que ela é a nossa mãe científica.

A Núbia para mim é como se fosse a minha mãe científica, a minha mãe profissional.

Mônica no laboratório de Síntese trabalhando em vertentes que levem a descobertas de substâncias bioativas para várias doenças como Câncer, Aids e doenças negligenciadas

Antenada com o atual momento do Brasil, Monica se entristece com o que vê e se emociona quando fala do país
– Eu fico pensando na nossa população o tempo todo. A Núbia Boechat, desde que entrei na Fiocruz, na iniciação científica, falava assim: “A gente sempre tem que dar resposta. Nossos salários são pagos pela população brasileira. Então, nós temos que dar resposta”. E hoje, me entristece ver emergências sendo fechadas, a população totalmente desassistida, e a gente que tem um grande potencial aqui dentro, que podemos ajudar muito mais do que ajudamos, estamos sendo cerceados e calados. Uma instituição como a Fiocruz e suas unidades não pode ficar nessa por muito tempo. Não é qualquer um que vai chegar e dizer e fazer o que quer daqui.

Monica Bastos por ela mesma
Casada e mãe de dois filhos, quando não está trabalhando, Mônica se dedica a família e dança quando pode.
– Quando não estou trabalhando, me dedico ao universo deles. Meu filho de cinco anos é muito levado, ainda está na fase de fazer muita besteira. Já minha filha é pré-adolescente. Está no momento de ouvir Anita e cia. A maioria dos programas de lazer que faço, são voltados para os meus filhos. Vou ao cinema, parque e teatro com eles. Sou uma mãe muito coruja. Das coisas que gosto de fazer quando não estou trabalhando é dançar. É uma terapia. Hoje em dia, por ter um tempo reduzido, eu não consigo mais frequentar uma academia de dança. Então, migrei para corrida na esteira. É bem verdade que foi por recomendação médica. Mas, hoje em dia, eu gosto. Às vezes eu acordo super tensa porque tenho uma porção de coisa para fazer. Aí eu corro 5km e fico renovada.

Outra coisa que adoro fazer é viajar! Tem uma viagem que foi especial para mim. Foi na época do Pós-doc, quando fiquei em Portugal por sete meses. Foram momentos inesquecíveis. Nos fins de semana, viajava muito para os outros países, pois era tudo ali ao lado. Foi um tempo muito bom, uma viajem muito marcante que lembro com carinho até hoje. Já fiz outras viagens para o exterior com as crianças, mas essa foi marcante porque morei lá e pude conhecer bastante aquela cultura e os hábitos dos povos em volta.

Focada e feliz com o que faz, Monica celebra
– O que me deixa feliz nesse momento é a gente ainda estar focado e direcionado para desenvolver os nossos trabalhos mesmo diante das circunstâncias do país. Quando eu vejo os bolsistas aqui dentro, trabalhando, penso: nós temos importância na vida dessas pessoas. Nós conseguimos plantar e ensinar alguma coisa muito boa. Eles estão vendo que, por mais que hoje não ganhe nada, o retorno futuro será muito bom. É gratificante ver os bolsistas olhando para gente e almejando galgar o mesmo patamar que estamos. Isso me deixa feliz.
No âmbito pessoal, o que me traz contentamento é poder dar condições dignas para os meus filhos, porque eles são o centro da minha vida. Eles foram muito desejados. Vê-los crescer com saúde e se tornando pessoas do bem e corretas é algo que desejo muito.

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