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Olhares, vozes e emoções para uma Cidade de Deus melhor

Representantes da comunidade, do poder público e das empresas participam de Roda de Conversa e refletem sobre o momento atual da comunidade


Representando o diretor Jorge Mendonça, a Chefe de Gabinete, Vânia Buchmuller, fez a abertura do evento. Participaram também da abertura, o Vice-diretor de Gestão do Trabalho, Eduardo Gnisci, e o Vice-Presidente da Asfoc, Paulo Garrido

Sob diferentes olhares, interesses e opiniões e com a mesma preocupação social, a Roda de Conversa, promovida pelo Núcleo de Gestão Social do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), reuniu representantes da comunidade, do poder público, das empresas e pesquisadores para debater o contexto do crescimento da violência. O evento também contou com a presença da ASFOC, da Cooperação Social da Presidência da Fiocruz e representantes de ONGs na Cidade de Deus além de colaboradores da unidade.

Entre medos, insegurança e emoção, o que se viu foi persistência, garra e vontade de continuar fazendo acontecer, mesmo com todas as dificuldades. Os problemas mapeados são grandes e as soluções não dependem só da ação de alguns, mas de políticas públicas sérias e da atuação eficaz do governo. Os pronunciamentos emitidos na conversa enalteceram o potencial dos moradores e dos profissionais envolvidos com a Cidade de Deus, mostrando que ainda acreditam na superação.

Magali Portela, assistente social de Farmanguinhos, destacou a troca e o aprendizado do evento. “Tivemos olhares a partir de diversos enfoques, que foram se cruzando e chegaram em alguns consensos. E essa troca é rica demais, porque agrega às pessoas individualmente e coletivamente, fortalece as nossas reivindicações e conquistas. Senti uma sinergia muito grande em olhar não só para as mazelas da comunidade, mas olhar com a potencialidade e a capacidade que essa cidade tem. O pertencimento, o comprometimento e o valor profundo daquele lugar foram bonitos de se ver”, concluiu a idealizadora do projeto, que ressaltou ainda que toda a produção do evento servirá como ferramenta para discutir horizontes de atuação conjunta com a socialização de ideias e ações, bem como o fortalecimento das ações já existentes.

A representatividade de atores e áreas foram organizadas em três mesas: 1) Olhar da Comunidade, com a participação de Viviane Salles (Poesia da Esquina) e João Paulo Marques (Agência CDD); 2) Olhar do Poder público, formada pelo Tenente Domiciano (UPP da CDD), Dr. José Figueiredo (Coordenador da Upa da CDD) e Rejane de Oliveira (Diretora da Creche Municipal Luzes do Amanhã); e 3) Olhar das empresas, instituída pelo Vice-diretor de Gestão do Trabalho de Farmanguinhos, Eduardo Gnisci. As pesquisadoras Mayalu Silva (CLAVES) e Anjuli N. Fahlberg da Universidade Northeastern (EUA) encerraram o evento.

Jacob Portela, sociólogo do Instituto, mediou o encontro e apresentou um diagnóstico, realizado na comunidade, fruto de um trabalho de pesquisa que vinha desenvolvendo desde julho de 2017, garantindo dados quantitativos sobre saúde, educação, violência (homicídios) e infraestrutura urbana. Confira os dados na apresentação.

Viviane Salles e João Paulo Marques citaram as dificuldades do cotidiano dos moradores e o trabalho que realizam na comunidade

O olhar da comunidade – Dentre os assuntos ressaltados estiveram a necessidade de recursos financeiros, direitos igualitários no ingresso ao mercado de trabalho, economia solidária e criativa e o valor da vida, seja de morador, bandido ou policial militar.

O educador João Paulo contou sobre o trabalho que faz com adolescentes do Eco Rede, promovendo aulas de alfabetização e pré-vestibulares. Para ele, os jovens da Cidade de Deus precisam se transformar em protagonistas da história. “Não adianta colocarmos todos os jovens na universidade, sendo que todos não possuem identidade ainda. E por não ter identidade, eles seguem reproduzindo a máquina. Hoje, meu principal papel como educador é auxiliar no reconhecimento do eu, onde eles querem chegar e em que desejam se transformar”, concluiu.

Nurimar dos Santos de Oliveira, Diretora da Escola Municipal Alberto Rangel, ressaltou que já passou por diversos momentos difíceis e sempre participa dessas discussões por acreditar na mudança. “Gostei de ver a disposição das pessoas em questionar a realidade e tentar mudar isso. Esta iniciativa vindo de uma instituição governamental ao lado de quem está com a mão na massa é muito importante, é um grito, uma voz. Vou trabalhar com os pais da escola essa conscientização de que todos nós temos que gritar. Juntar forças para solucionar”, frisou.

Rejane de Oliveira, diretora da Creche Municipal Luzes do Amanhã, Tenente Domiciano, da UPP da Cidade de Deus, e Dr. José Figueiredo, Coordenador da Upa da comunidade, contaram as dificuldades da crise financeira e de estarem entre a sociedade e o governo

O Olhar do poder público – Os questionamentos e apelos ao Tenente Domiciano foram muitos. A forma de abordagem da Policia Militar em situações de confronto, resistência armada, domínio territorial e a forma que os policiais são recebidos foram explicados pelo policial da UPP. A vontade de ser escutada fez com que uma jovem moradora da Cidade de Deus tivesse um diálogo aberto com o policial o que reforçou a importância de haver respeito e confiança entre a segurança pública e a comunidade.

Tailane Bahia, de 19 anos, faz parte do Eco Rede e desabafou com o policial: “A presença da polícia na favela é importante. O diálogo não pode ser enfraquecido e muito menos ter abuso de poder, pois isso dificulta a atuação da polícia e prejudica o morador. É importante esse coletivo, a gente se fortalece, reflete e a mudança vem logo após. Acho que cada um fazendo a sua parte, um a um faz a diferença, para juntos fazermos uma corrente. A gentileza prega mais que o ódio”, alertou a moradora.

O Coordenador da UPA, Dr. José Figueiredo, ressaltou o trabalho realizado no local, relatando que somente até setembro de 2017 atendeu 60 pacientes baleados, sendo cinco a mais que todo o ano de 2016. Além disso, ele destacou o fato da faixa etária e gênero terem diversificado e aumentado, seja por bala perdida ou confrontos. Os moradores e representantes lembraram tristes casos, em que vidas foram perdidas, por conta dos serviços de resgate SAMU e Bombeiros não poderem entrar nos locais de difícil acesso para realizarem o salvamento. Visitas, possíveis parcerias e desdobramentos foram sugeridos entre os representantes de Farmanguinhos e o diretor e da UPA local.

O médico do trabalho da unidade, Vladimir Gonçalves, participou de todo o evento e ressaltou o diálogo como fundamental. “Acho que esses encontros são essenciais para encontrar atores políticos completamente distintos, com pensamentos ideológicos diferentes, porém para obter planos de ação em comum. Temos um papel de neutralidade, pois temos relacionamentos com todas as esferas, então temos esse papel catalisador de representatividade. E o contato com a UPA da CDD foi muito importante, pois poderemos agregar valor para os funcionários de Far”, frisou o médico.

Eduardo Gnisci comentou sobre os determinantes sociais da saúde e em seguida, Anjuli N. Fahlberg (Northeastern University) e Mayalu Silva (CLAVES) falaram sobre realidade que viram em suas pesquisas

Olhar das empresas – O vice-diretor de Gestão do Trabalho, Eduardo Gnisci, participou da terceira roda e lembrou da importância de um planejamento governamental de médio e longo prazos. “Temos que pensar na política pública e programas governamentais, que identifiquem a natureza de muitas misérias nas quais estamos inseridos e que precisam ser alvos de ações segmentadas e diretivas, para mitigar esses problemas. Não adianta UPP, que não pense em todos os determinantes sociais da saúde. Temos que pensar em segurança, em educação, empregabilidade, saúde, e em todos os fatores que afetam a vida humana, no ponto de vista físico, psicológico, comportamental e social”, finalizou.

Mayalu Silva (CLAVES) expôs sobre o impacto da violência em territórios vulnerabilizados, destacou que “em 2017 ainda estamos discutindo o direito à vida em função da violência armada” e que os jovens negros e de periferia são as maiores vítimas.

Anjuli N. Fahlberg (Universidade Northeastern) apresentou os resultados da pesquisa que realizou na CDD intitulada “Construindo Juntos” com dados de saúde, educação, moradia, infraestrutura e segurança. Clique aqui e confira o folder desse artigo.

Fotos: Viviane Oliveira