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Carla Justino, do Laboratório de Validação e Métodos Analíticos (LDVA), realiza o perfil de dissolução do isoniazida + rifampicina, em fase de desenvolvimento

Farmanguinhos é um laboratório ímpar no país, por abarcar toda a cadeia produtiva de um medicamento, desde a pesquisa de base até o produto final. A instituição é um braço estratégico do Ministério da Saúde, inclusive na condução das Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDP). Apesar de toda a importância que essa política de estado representa para o país, a unidade atua também no desenvolvimento interno de novos produtos.

Neste sentido, a Divisão de Gestão de Desenvolvimento Tecnológico (DGDT), vinculada à Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico (CDT), é a área que congrega todas as atividades inerentes à realização de estudos internamente, ou seja, não provenientes de PDP. “São projetos de desenvolvimento a médio e longo prazo, que envolvem um grau de incerteza intrínseco ao desenvolvimento tecnológico, o que é diferente da transferência de tecnologia”, ressalta Juliana Johansson, coordenadora da área.

Ela tem a importante tarefa de coordenar uma área que envolve quatro setores, sendo o Escritório de Projetos e três laboratórios. Em relação ao Escritório de Projetos, além de Juliana, o setor é composto por mais três profissionais, que executam a função de gerentes de projetos: Lucyenne Barbosa, Graça Guerra e Daniel Lacerda. Eles são responsáveis por acompanhar todos os projetos em seu ciclo de desenvolvimento tecnológico.

Esses projetos internos são elencados a partir de demandas do Ministério da Saúde. Para se ter uma ideia, atualmente, o Instituto conta com 18 projetos institucionais de desenvolvimento ou redesenvolvimento de medicamentos, ou seja, estudos realizados internamente. “São projetos de desenvolvimento e redesenvolvimento com diversos objetivos específicos em seu escopo”, ressalta a coordenadora.

A estrutura do DGDT é composta ainda por dezenas de profissionais alocados em seus respectivos laboratórios: Laboratório de Tecnologia Farmacêutica (LTF), Laboratório de Validação e Métodos Analíticos (LDVA) e o Laboratório de Estudos do Estado Sólido (LEES). “O desenvolvimento tecnológico propriamente dito ocorre nesses três laboratórios. O LTF desenvolve as formulações e os processos produtivos; o LDVA desenvolve e valida as metodologias analíticas; e o LEES é responsável por todo o estudo de caracterização do estado sólido”, salienta a servidora.

Daniel Lacerda, Juliana Johansson, Thiago Costa, do LTF, Rafael Seiceira, do LEES, Graça Guerra, Lucyenne Barbosa, e Diogo Dibo, do LDVA

Ela observa que os projetos de absorção tecnológica, isto é, proveniente de PDP, também passam também pela DGDT, uma vez parte do suporte técnico é fornecido pelos laboratórios vinculados à área. “Contribuímos no processo operacional das transferências de tecnologia, principalmente pela atuação do LTF e do LEES, e a gestão das PDP é realizada pela AGPAT (Acompanhamento da Gestão de Absorção Tecnológica)”.

Atividades – Com essas funções definidas, a DGDT fica responsável pelo desenvolvimento e redesenvolvimento internos de formulações, processos produtivos e metodologias analíticas. Além disso, há também projetos com parcerias externas, dentre os quais, o Praziquantel Pediátrico, cuja formulação está sendo viabilizada por meio de uma cooperação entre empresas de diferentes países, grupo esse denominado Consórcio Internacional Praziquantel Pediátrico.

“Esse projeto traz muito conhecimento para Farmanguinhos, principalmente sobre a dinâmica internacional de registro. Ele abre horizontes de conhecimento e pode nos auxiliar também na qualificação de outros produtos nossos. Adquirimos muitos conhecimentos em procedimentos para fazer um desenvolvimento tecnológico que, desde o início, sela elaborado com formato que nos permita conseguir registros internacionais, ou uma pré-qualificação mais rapidamente junto à Organização Mundial da Saúde (OMS)”.

Além desta importante iniciativa internacional, Farmanguinhos, por meio da DGDT, tem parceria com o René Rachou (CPRR/Fiocruz Minas) para o desenvolvimento do gel de paramomicina, antibiótico para leishmaniose cutânea.

Além destes, há a iniciativa para o desenvolvimento de um antirretroviral para as crianças que vivem com o vírus HIV/Aids. “O trabalho do meu Doutorado é o desenvolvimento do atazanavir pediátrico para atender a uma demanda do Ministério da Saúde. Ainda não estamos com o projeto oficialmente aberto, mas a tendência é que, com o amadurecimento do estudo, e constatada a viabilidade desse investimento, é possível que se torne oficial. Estamos buscando patrocínio em agências de fomento para tentar viabilizar mais este desenvolvimento”, destaca Juliana.

A servidora argumenta que esse medicamento foi uma demanda do Ministério da Saúde e que esse projeto está sendo trabalhado em parceria com outras unidades da Fiocruz e outras instituições, como a UFRJ, por exemplo.

“A DGDT trabalha com pesquisa voltada para atender a saúde pública a médio prazo. Os projetos de pesquisa básica são muito relevantes, mas têm um olhar mais de longo prazo. Nossa missão é desenvolver pesquisas aplicadas, por meio de desenvolvimento tecnológico, para gerar produto em um prazo menor. É com essa visão que estou buscando capacitar a equipe e fortalecê-la para trabalharmos a fim de concretizar entregas ao Ministério num cenário mais próximo”, argumenta.

Além da visão estratégica para atender as demandas do Ministério da Saúde, a DGDT atua também no redesenvolvimento de produtos, processos e métodos analíticos que requerem melhorias, através dos laboratórios que dão suporte à área produtiva. Trata-se da atuação em pós-registro, que inclui implementações de melhorias, alteração de equipamentos e otimizações, sejam tecnológicas, produtivas ou econômicas.

“A DGDT nos permite estudar o tempo todo, é uma área que não esgota a formação nunca. Temos uma equipe multidisciplinar. O LTF é composto exclusivamente por Farmacêuticos. Já nos laboratórios analíticos (LDVA e LEES), a formação é variada, englobando farmacêuticos, químicos, engenheiros químicos, técnicos em química, dentre outros profissionais. É muito interessante ter diferentes profissionais também contribuindo, uma vez que a visão analítica de um farmacêutico é diferente da do químico. Portanto, essa multidisciplinaridade dentro de um laboratório só agrega para a instituição”, frisa.

Desafios e perspectivas – A Divisão de Gestão de Desenvolvimento Tecnológico tem se articulado para viabilizar os projetos. A área discute o desenvolvimento de tecnologias de implementação imediata, que requer menos investimentos. Apesar de o país atravessar uma fase econômica adversa, a área tem recorrido a agências de fomento para conseguir recursos para desenvolver tecnologias e produtos mais modernos.

É com essa postura estratégica que a Divisão de Gestão de Desenvolvimento Tecnológico tem atuado, sempre com o propósito de atender as demandas do Ministério da Saúde e, consequentemente, oferecer os melhores tratamentos para os pacientes assistidos pelo SUS.