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O que a lagarta chama de fim do mundo, o homem chama de borboleta” – Richard Bach

 

Foi com o foco nessa mensagem que Gisele Monteiro Moreira metamorfoseou os caminhos em sua vida.

 

Gisele Monteiro Moreira atualmente está na chefia do ambulatório do Departamento de Gestão da Saúde do Trabalhador (DGST)

O que você quer ser quando crescer

A resposta era dada sem medo de errar: “Quero ser médica”! Desde a mais tenra idade, Gisele já sabia o que queria ser. A pequena criança só não sabia que sua vida passaria por muitas transformações.

– Desde que eu era menina, eu sempre quis seguir o caminho da Medicina. Desde que eu me entendo por gente. Porém, o curso da minha história mudou no fim de minha adolescência. Engravidei cedo, e aí aconteceu a primeira metamorfose em minha vida. Meu marido e eu temos a mesma idade. Na época, por sermos muitos jovens, minha mãe quis nos ajudar e veio conversar comigo. “Filha, porque você não escolhe Odonto, eu posso te ajudar. Eu já tenho consultório, já tenho clientela”. Aí eu acabei seguindo Odonto. Sou muito grata a Odontologia.

 

Aquela vozinha no coração pedindo a Medicina

Juliana, filha de Gisele, se formou em Medicina e realizou o sonho da mãe

Apesar de ter trilhado o caminho da Odontologia, a inquietação incomodava, pois, a vontade de estudar Medicina não havia cessado.

– Eu passei um tempo inquieta. Não tinha estudado o que eu queria. Procurei sanar essa inquietação fazendo Pós-graduações ligadas à faculdade de Medicina. Uma das minhas Pós foi em Estomatologia, que é o estudo das doenças da cavidade bucal: fungo, câncer, bactérias, doenças de um modo geral e diagnósticos também. Depois, fiz mestrado em Patologia Buco-Dental. Em seguida, fiz especialização em Odontologia do Trabalho que é onde eu me encaixo hoje.  Porém, fiquei mais tranquila quando minha filha mais velha passou para a Faculdade de Medicina. Parece que a minha vontade deu uma acalmada. Acho que me satisfiz por meio dela. Eu sempre dizia: eu posso ficar velhinha. Mas, eu vou estudar Medicina”. Porém, quando ela passou, aquela sensação se aquietou.

Quando eu vim para Farmanguinhos começou uma outra etapa na minha vida

A chegada em Far e o trabalho na Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico (CDT)

 

Amigos da época em que trabalhou na Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico (CDT)

Por conta da especialização em Odontologia do Trabalho, Gisele acabou fazendo concurso para Fiocruz. Passou e foi trabalhar direto em Farmanguinhos.

– Trabalhar na Fiocruz era um sonho que eu tinha na minha vida. Mas, eu achava que era um sonho inalcançável. Eu passava por Manguinhos e falava: “Ai meu Deus, eu acho que nunca vou conseguir trabalhar aqui”. Todos sabem que na área de saúde a Fiocruz é considerada o topo, a referência. Não tem outro local que tenha tanta notoriedade. Então, quando me vi pertencendo ao staff eu falei: “Não estou acreditando”! (rs)

– Ao chegar em Far, me deparei com um universo totalmente diferente. Fui para uma área que não tinha nada a ver com a minha realidade. Após fazer um curso de Gerenciamento de Projetos lá na Fiocruz, comecei a trabalhar como gerente de projetos na área de Desenvolvimento de Medicamentos. Não foi fácil compreender esse processo. Às vezes eu ia para reunião, as pessoas conversavam e eu ficava: “Eu não entendo nada disso. Não consigo assimilar as etapas, o que vem primeiro, o que vem depois”.

– As dificuldades eram aparentes porque o processo era novo para mim. Isso foi no primeiro ano na CDT. Depois, eu fiquei confortável. Com a ajuda dos meus colegas da área, passei a entender o processo e acreditar na minha capacidade. Penso que ajudei de alguma forma. No fim das contas, aprendi muita coisa na CDT, tenho amigos maravilhosos lá, fui recebida com muito carinho por todos e acho que cumpri o meu papel naquele setor.

E se eu chegar lá e me derem uma porção de papelada? Até porque não tem odonto aqui. Mas, se a gente não arriscar, nunca vai saber

 

Nova oportunidade em Far. Agora, na área da saúde

Gisele com parte dos colaboradores que trabalham com ela no Departamento de Gestão da Saúde do Trabalhador (DGST)

 

Mais uma mudança. Gisele colocou em sua “bagagem” algumas incertezas e muita coragem.

– Embora eu tenha sido bem recebida na CDT, confesso que tinha vontade de estar na área da saúde, efetivamente. Mas, o bom ambiente no antigo setor, meus amigos… tudo isso dava uma segurada na minha onda. (rs). Aí o tempo foi passando. Mas, sempre faltava um pedaço para eu me realizar profissionalmente aqui. E aí, veio essa oportunidade de vir para a área de saúde e criar a proposta para a odontologia do trabalho. Então pensei: “se não for agora, será quando? Estou tendo, dentro de uma fábrica, a oportunidade de trabalhar naquilo que eu sou especialista, dentista do trabalho, e eu não vou? Agora é a hora”.

 

– Então, vim para o Departamento de Gestão da Saúde do Trabalhador (DGST/VDGT) e fui muito bem recebida. Todo mundo me ajudou. A equipe, mesmo eu sendo nova no setor, me deixou participar das reuniões. Às vezes eram assuntos que estavam sendo decupados. Mas, eles faziam questão que eu estivesse presente para poder me inteirar de tudo. O grupo aqui é ótimo, o pessoal chega junto. Hoje, eu levanto pela manhã e venho trabalhar feliz. Eu achava que não ia me encaixar. Mas, estou muito bem aqui. Atualmente, sou chefe do ambulatório. Esse foi outro desafio, pois eu não esperava por isso.

 

Minha história não seria a mesma se não houvesse acontecido da forma que aconteceu. Tenho uma família maravilhosa

Como Far se apropria da sua contribuição

– Farmanguinhos se apropriou muito na questão das PDPs. Quando trabalhei como gerente de projetos na CDT, era responsável pela PDP Docetaxel, um oncológico injetável, que à época estava em fase de adequação ao projeto executivo. Sob a chancela da antiga gestão, precisei ir a Brasília juntamente com representantes da administração anterior, para fazer uma apresentação e defesa daquele projeto junto ao Ministério da Saúde. Foi um momento muito legal, pois eu não era farmacêutica e ia defender o projeto para farmacêuticos do ministério. Outras vezes, foi participando do próprio gerenciamento das PDPs. Dessa forma eu pude contribuir com Farmanguinhos e a instituição pode se apropriar daquilo que eu pude dar. Hoje, trabalhando na área da saúde, tento trazer nesse momento de crise no país, um resgate bom para os nossos colaboradores na parte odontológica. Dar uma assistência, fazer um atendimento e um diagnóstico clínico, encaminhar para o profissional que irá atende-lo, solicitar alguns exames sem onerar a instituição, é uma ajuda interessante.

 

 As pessoas são o grande problema e a solução do mundo

Nisso tudo, o que te dá prazer

As pessoas. O convívio bom com as pessoas. Engraçado, as pessoas são o grande problema e a solução do mundo. Plagiando a Organização Internacional Médicos sem Fronteiras, só um ser humano pode salvar outro ser humano. Embora a gente veja tanto coisa ruim acontecendo, o convívio e o retorno das pessoas, o olho no olho, o carinho, isso me dá prazer além de ser importante. Tanto é que, se assim não fosse, eu não teria conseguido permanecer tanto tempo trabalhando com algo que, inicialmente, não me deixava segura. Porém, o retorno que eu tinha do convívio com equipe era tão bom que isso para mim falou mais forte.

 

Se eu tive a sorte de encontra-lo, ele também teve a sorte de me encontrar

Gisele e sua história

– Tenho dois filhos. Uma menina de 28 anos chamada Juliana e o Nicolas, que está com nove anos. Todos são do mesmo casamento. Falo isso porque as pessoas se assustam com a diferença de idade entre eles. Eu me casei muito jovem. Tive filho muito cedo e acho que minha história não seria a mesma se não houvesse acontecido assim. Meu marido além de ser meu parceiro está comigo até hoje. Ele é uma pessoa rara. Um amigo. Eu tive a sorte de encontra-lo e ele a mim. Estamos seguindo e amadurecendo juntos. Quando eu engravidei, as pessoas falavam assim para mim: “Coitada, agora já era, né. Você não vai fazer mais faculdade”. Elas não sabiam o quanto ouvir isso me fez bem. Eu falei para mim mesma: “Cara, aí é que mora o seu engano. Não vou desistir de jeito nenhum. Eu não sou de desistir nem tão pouco sou pessimista”. E aqui estou eu com três Pós-graduações, um mestrado e me encaminhando para um doutorado. Sou libriana e geniosa. Sou muito tranquila no convívio com as pessoas. Não gosto de brigar e nem ser mal-educada com ninguém. Mas, se eu tiver que falar alguma coisa para defender alguém ou defender alguma ideia, eu não deixo para depois (rs). Reconheço que sou indecisa para algumas coisas. Acho que todo mundo é. Também sou muito crítica e falante.

 

Disneyland, Orlando-Flórida

– A coisa que mais gosto de fazer no mundo é viajar com minha família. Eu tenho que confessar uma mania: sou viciada em Disney. Todo o ano eu começo a planejar nossa viagem para outro lugar e quando eu vejo, estamos em Orlando. Todos nós gostamos muito. Esse ano, além de Orlando, nós fomos a Buenos Aires, pois não conhecíamos. Gostamos muito de lá também.

 

 

Sonho com a paz no mundo. Mas, também sonho em ter certeza absoluta de que nada de ruim vai acontecer com as pessoas que eu amo

 

– Eu tenho muito medo do mundo de hoje. Perco o sono, literalmente, por preocupação com a minha filha. Ela anda por tudo que é lugar, né. Vai para um hospital aqui, outro acolá, e eu confesso que morro de medo do que pode acontecer com ela. O jovem tende a ter menos medo que a gente. Sempre digo a ela: “Cuide de você”, pois o Rio de Janeiro está com uma violência extrema. O meu filho já é criado mais preso. Não anda sozinho. Ele não tem aquilo que eu tinha na idade dele, de andar de bicicleta pelo meu prédio, descer sozinha e ficar na piscina. Eu já pensei até em sair do Rio porque eu fico preocupada com o futuro deles. Eu sou otimista, mais, do jeito que está não dá. De modo geral, sonho com a paz no mundo. Mas, também sonho em ter certeza absoluta de que nada de ruim vai acontecer com as pessoas que eu amo. Saber que minha filha está segura indo trabalhar, que meu marido e meu filho também estão seguros, meus pais, todos que me cercam, se eu pudesse ter essa certeza, seria maravilhoso.

 

Gisele vem transformando cada momento de lagarta em lindos voos de borboleta. Cada metamorfose feita, criou caminhos para grandes crescimentos e é com a voz tremula, embargada de choro que ela diz: “Ora lagarta. Ora borboleta. Às vezes você acha que vai dar tudo errado na sua vida. Mas, é ali que começa o seu momento de transformação. A sua saída do casulo”.