Em um compromisso com a população brasileira, o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) preza pela melhoria contínua de seus produtos. Um assunto que ganha ainda mais relevância quando analisado o portfólio da instituição voltado para os tratamentos das chamadas Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) ou Doenças Determinadas Socialmente, comumente presentes em regiões de vulnerabilidade social.

Ao todo, 20 patologias correspondem ao grupo de DTNs, sendo elas hanseníase, dengue, leishmaniose, esquistossomose, raiva humana, escabiose (sarna), doença de Chagas, parasitoses intestinais e tracoma. Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) não classifique tuberculose e malária estritamente como negligenciadas, essas continuam sendo doenças determinadas socialmente, afetando populações mais pobres em quadros graves de coinfecção. E Farmanguinhos oferece 14 tipos de tratamentos para quatro dessas enfermidades.
“Essas doenças ainda representam um grande desafio para a saúde pública mundial, especialmente em regiões marcadas por vulnerabilidades sociais. E é com excelência técnica que investimos regularmente na produção, pesquisa e desenvolvimento para a ampliação da qualidade dos produtos que oferecemos. Uma missão em que seguiremos firmes para entregar medicamentos essenciais para quem precisa”, disse a diretora da unidade, Silvia Santos.
Um exemplo disso é a recente finalização de protótipos otimizados das formulações de rifapentina e da dose fixa combinada pediátrica isoniazida + rifampicina, projeto conduzido pela Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico (CDT) do Instituto.
A rifapentina integra as novas Terapias Preventivas da Tuberculose (TPTs) de curta duração, destacando-se como uma alternativa terapêutica relevante. Quando associada à isoniazida, possibilita a redução do tempo de tratamento de 9 meses, com administração diária, para apenas 3 meses, com doses semanais, totalizando 12 doses. O projeto de Farmanguinhos, então, visa uma maior efetividade na prática clínica, uma vez que os tratamentos de longa duração são comprometidos por interrupções frequentes e irregularidades no uso dos medicamentos, causando o surgimento de resistência e dificuldade em controlar a doença.
Esses tuberculostáticos entram, agora, em fase de desenvolvimento industrial, plenamente integrados ao Sistema de Qualidade Farmacêutica, em uma prática que reafirma a capacidade interna de desenvolvimento tecnológico. Além dos medicamentos para tuberculose, formulações contendo benznidazol também estão em fase avançada de desenvolvimento tecnológico, ampliando o papel estratégico de Farmanguinhos para o enfrentamento da doença de Chagas.
“Esses projetos ampliam, de maneira estratégica, o portfólio de medicamentos para tuberculose de Farmanguinhos. Algo que reforça o papel do Instituto como produtor público essencial no desenvolvimento e na garantia de acesso a tratamentos para doenças negligenciadas, em alinhamento com as necessidades do SUS e com as políticas públicas”, explica a coordenadora de Desenvolvimento Tecnológico de Farmanguinhos, Juliana Johansson.
Inovação e Pesquisa
Para além dos produtos já disponibilizados, Farmanguinhos atua no desenvolvimento de pesquisas voltadas à avaliação de métodos inovadores para o tratamento dessas doenças.
Como exemplo, estão o projeto de desenvolvimento de fitoterápicos para tratamento tópico adjuvante da leishmaniose tegumentar, com ação na redução da parasitemia e na aceleração da cicatrização; o projeto de reposicionamento de fármacos, novas associações terapêuticas e formulações inovadoras para o tratamento da tuberculose multirresistente; e a estratégias voltadas para o mascaramento do sabor de fármacos já utilizados para o tratamento pediátrico da malária.
No âmbito do Laboratório de Síntese de Fármacos (Lasfar), também são estruturados projetos estratégicos voltados ao fortalecimento do enfrentamento da Doença de Chagas. Estudos recentes indicaram que substâncias desenvolvidas pelo laboratório apresentam maior potência terapêutica e menor toxicidade quando comparadas aos fármacos atualmente disponíveis, como é o caso do LASFAR-DC-04, que passa pela etapa de desenvolvimento pré-clínico, com foco na farmacocinética in vitro e in vivo.
O Lasfar também conduz pesquisas focadas no desenvolvimento de um novo processo produtivo para o benznidazol, único fármaco aprovado no Brasil para o tratamento da Doença de Chagas, priorizando métodos mais ágeis, com maior rendimento, menor custo e impacto ambiental reduzido.
Essa mesma estratégia é aplicada a pesquisas voltadas às infecções fúngicas sistêmicas, por meio do desenvolvimento de novas estruturas químicas com potencial para eliminar diferentes espécies de fungos patogênicos.
Atendimento à demanda internacional
É por meio do desenvolvimento contínuo de processos internos que Farmanguinhos transforma compromisso público em reconhecimento internacional.

Em 2025, o Instituto assinou a formalização da parceria que inicia o processo de lançamento, em Portugal, da primaquina. Utilizado no combate à malária, o medicamento desenvolvido por Farmanguinhos/Fiocruz é considerado referência, no Brasil, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A parceria realizada com a Universidade de Coimbra (UC) e o ICNAS Pharma, visa a colaboração entre as instituições para o auxílio no processo de validação, em território português.
A unidade também possui parcerias para o tratamento de esquistossomose em comunidades endêmicas, como é o caso de países da África Subsaariana. O arpraziquantel foi desenvolvido especificamente para a faixa etária de três meses a seis anos, como parte do projeto Consórcio Pediátrico Praziquantel (https://www.pediatricpraziquantelconsortium.org/), ao qual Farmanguinhos integra como membro. O primeiro tratamento foi administrado em Uganda, como parte do programa ADOPT, além de ser introduzido em países como Costa do Marfim, Quênia, Tanzânia e Senegal.

Estudos deste medicamento também estão sendo realizados no Brasil, enquanto o processo regulatório para a distribuição em território nacional evolui na Anvisa. Anteriormente, o arpraziquantel já havia recebido parecer científico positivo da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), em dezembro de 2023, e foi incluído na Lista de Medicamentos Pré-qualificados da Organização Mundial de Saúde (OMS), em maio de 2024, o que traz boas perspectivas para o processo de avaliação junto à Agência.
Juntas, essas são práticas que evidenciam o papel ativo de Farmanguinhos/Fiocruz no cumprimento de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, como os ODS 3 (Saúde e Bem-Estar) e 17 (Parcerias e Meios de Implementação), além das metas para a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), que visam o controle e a eliminação dessas enfermidades.



Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas
Celebrada no dia 30/1, a data foi estabelecida pela OMS para a conscientização sobre doenças comumente presentes em regiões de vulnerabilidades sociais. A iniciativa visa incentivar a mobilização para o controle, o tratamento e a pesquisa, com foco na integração de ações e no envolvimento comunitário para eliminação dessas enfermidades.
Geralmente causadas por vírus, bactérias, parasitas, fungos e toxinas, essas doenças ameaçam mais de 1 bilhão de pessoas apenas no continente americano, segundo o Ministério da Saúde, podendo causar até 1 milhão de mortes por ano












