O instituto que enxerga e financia a ciência como arte.
Serrapilheira é aquela camada superficial de florestas e bosques, formada por folhas, ramos e outras fontes de matéria orgânica que devolvem nutrientes ao solo.
É também o nome da primeira entidade privada dedicada ao fomento de pesquisa e à divulgação científica do país, lançada nesta quarta-feira (22) no Rio.
O nome foi escolhido por João Moreira Salles, que, junto com sua mulher, a linguista e professora da PUC-RJ Branca Vianna Moreira Salles, quer “fertilizar a terra da ciência brasileira”. O segundo motivo para o batismo, diz o documentarista, é a sonoridade da palavra, agradável.
Herdeiro do Unibanco, que foi fundido ao Itaú, João é uma das pessoas mais ricas do país, com fortuna estimada em US$ 2,8 bilhões pela revista Forbes. A família também tem negócios na área de mineração.
Para a constituição da nova agência de fomento, R$ 350 milhões foram doados pelo casal Moreira Salles para um fundo patrimonial. Os rendimentos devem garantir o suficiente para um orçamento anual de cerca de R$ 15 milhões para financiar projetos das áreas de matemática, ciências físicas, ciências da vida e engenharia.
O gosto de João Moreira Salles pela ciência e, em especial, pela matemática já havia ficado claro nas reportagens que escreveu e editou na revista “piauí”, que ele fundou.
Não por acaso o lançamento do Serrapilheira aconteceu no Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), no bairro do Jardim Botânico, no Rio, que já recebeu vultosas doações de Moreira Salles. É onde atua o matemático Artur Avila, único brasileiro ganhador da medalha Fields (o “Nobel” da matemática).
De uma conversa que Moreira Salles teve com o matemático e ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências Jacob Palis, em 2014, nasceu então a ideia de tentar mudar o cenário da pesquisa científica no país. Dezenas de instituições no Brasil e no exterior foram visitadas desde então em busca de um modelo para o Instituto Serrapilheira.
A ambição é associar a marca aos melhores pesquisadores do país. Para chegar a esse nível de excelência, a palavra de ordem deve ser liberdade.
Não haverá muitas regras de como o pesquisador deverá gastar o dinheiro recebido–coisa rara na conjuntura da ciência brasileira, majoritariamente financiada por entidades ligadas aos governos estaduais e federal.
Pelas regras dessas agências, por exemplo, não é possível ir a um importante congresso de uma área sem ter um trabalho para apresentar, e mesmo organizar eventos acaba sendo bastante complicado, afirma Edgar Zanotto, professor da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) e presidente do conselho científico do instituto.
Segundo ele, a ciência no Brasil é feita de uma maneira quase uniformemente “incremental”, o que é válido. A proposta do Serrapilheira, porém, é outra.
O plano é apoiar ideias inovadoras, “extraordinárias”, capazes de mudar uma área da ciência, atacando problemas centrais.
Grosso modo, a ideia não é dar bolsas de mestrado ou doutorado, mas sim conceder uma verba de pesquisa que o pesquisador poderá usar como quiser, incluindo a contratação de outros pesquisadores ou até mesmo de técnicos que lidem com a burocracia do laboratório.
Não existe um número estabelecido de propostas que serão contempladas a cada ciclo nem um valor fechado para cada projeto –isso dependerá da proposta. Segundo o cronograma do instituto, os primeiros projetos poderão ser enviados no segundo semestre deste ano.
Outra meta da entidade é apoiar a divulgação científica para melhorar a imagem e a percepção que as pessoas têm da ciência no Brasil. A área provavelmente contará com cerca de 20% do orçamento, mas ainda não foi divulgado que tipos de propostas serão buscadas.
Ficaram de fora do guarda- chuva do Instituto Serrapilheira as ciências humanas. A explicação, diz Moreira Salles, é que a área das ciências naturais carece de personagens no imaginário brasileiro e na dramaturgia do país.
“Na cabeça dos jovens, tornar-se um cientista não é algo tão empolgante ou descolado”, diz. Ele cita um ano em que se formaram 30 alunos de cinema na PUC-RJ e apenas dois matemáticos na mesma instituição. “O Brasil será uma tragédia. Uma tragédia bem filmada, mas ainda assim uma tragédia.”
Outro motivo para a escolha é que João e seus irmãos já comandam o Instituto Moreira Salles, que tem atuação mais intensa nas áreas de artes visuais, literatura e música. As sedes ficam no Rio e em Poços de Caldas (MG). Uma nova unidade deve ser inaugurada em julho, na av. Paulista, em São Paulo.

GENEBRA – Gastos com saúde, ciência e tecnologia não são gastos, mas investimentos. Quem faz o alerta é a nova presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade Lima. Primeira mulher a comandar a fundação em 116 anos de história, a gestora está nesta semana em Genebra para encontros na Organização Mundial da Saúde (OMS). Em meio ao debate sobre cortes orçamentários no governo de Michel Temer, Nísia sai em defesa da manutenção do Sistema Único de Saúde e de políticas que possam permitir ao Brasil desenvolver ciência, principalmente no campo médico.





