Autor: Tatiane Sandes (Página 18 de 24)

Conheça o Serviço de Bioprocessos

Nos últimos anos a biotecnologia vem se consolidando como um importante segmento da indústria farmacêutica. Neste sentido, Farmanguinhos vem investindo nesse ramo da Ciência, a fim de atender esse cenário. Para isso, a unidade conta com o Serviço de Bioprocessos (antigo laboratório de Bioprodutos), do Departamento de Biotecnologia, vinculado à Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico (CDT). Para se ter uma ideia da importância dessa área, de acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2012, medicamentos biológicos representavam apenas 5% na rede pública de saúde, no entanto, consumiam 43% do total de gastos do país.

“A maioria das grandes empresas farmacêuticas tem a biotecnologia internamente, muitas delas por meio da aquisição de outras pequenas empresas especializadas. Inovações como anticorpos monoclonais, terapia gênica ou celular estão na fronteira tecnológica da biotecnologia em saúde”, explica a servidora Graziela Pacheco.

Ao todo, dez profissionais atuam no Departamento de Biotecnologia nessas áreas, sob coordenação de Fabius Vieira Leineweber. “A substituição do nome por bioprocessos se deve por ser uma terminologia que tem o uso mais relacionado ao desenvolvimento de processos biotecnológicos de insumos farmacêuticos, enquanto bioprodutos remete mais a outros processos relativos a recursos biológicos renováveis” explica o servidor Fabius Leineweber.

O Serviço de Bioprocessos tem uma equipe multidisciplinar e altamente especializada, sendo quatro doutores e dois mestres. Eles atuam em diferentes operações, tais como controle microbiológico, biologia molecular, fermentação, recuperação e reenovelamento de proteínas, cristalização, reações enzimáticas, purificações cromatográficas de baixa e alta pressões e controle de processos. A gerência de projetos, além da prospecção, qualidade e suporte administrativo ficam a cargo do Departamento de Biotecnologia.

Equipe do Serviço de Bioprocessos

Alta performance – Recentemente, o laboratório passou por obra de adequação. Ao todo, possui aproximadamente 140 m2 de área operacional e conta com equipamentos de ponta, que possibilitam a automatização de processos e permitem o trabalho de modo reprodutível e aplicável em escala de produção. Desta forma, os profissionais trabalham no desenvolvimento, absorção, harmonização e escalonamento de tecnologias de produção de medicamentos que envolvam processos de origem microbiana. Além disso, a área presta serviços e colaborações técnicas internas ou externas e busca captar recursos por meio de projetos.

Outra grande novidade da Área é o início da automatização de alguns processos, permitida em virtude da recente instalação de equipamentos como coletor automático de amostras, analisador bioquímico, sensores de turbidez e sistema de pipetagem automática. Dentre as vantagens proporcionadas por esta automação estão a maior reprodutibilidade quando comparado a procedimentos manuais e a redução de parâmetros críticos de processo gerados, por exemplo, por perdas resultantes de contaminação ou erros operacionais.

“Atualmente, os equipamentos estão passando por uma etapa de padronização de metodologias, com base na tecnologia para produção de insulina, já bem estabelecida em escala de bancada em nosso laboratório. Atuando de maneira integrada com biorreatores, o coletor automático de amostras e o analisador bioquímico permitem que amostras sejam coletadas automaticamente do meio de cultivo e transferidas on line para a análise bioquímica. Com base no resultado obtido, comandos podem ser dados automaticamente ao biorreator para, por exemplo, aumentar o fluxo de nutrientes ao meio de cultivo, conforme as necessidades do microrganismo. A grande vantagem deste processo automatizado é a redução do risco de contaminação e a possibilidade de ajustes mais precisos do bioprocesso, com coletas de dados mais frequentes, resultados mais rápidos e consistentes, passíveis de otimização e escalonamento”, explica Graziela.

Responsável pelo Laboratório há dois anos, Graziela Pacheco é formada em Biologia, com mestrado em Tecnologia de Processos Bioquímicos e Doutorado em Bioquímica. A servidora entrou no Instituto em 2012. Antes, ela atuou em instituições de ensino superior, totalizando 11 anos de experiência profissional na área.

Segundo Graziela, a inserção da Biotecnologia em Farmanguinhos se mostra promissora, e a formação multidisciplinar é necessária porque este segmento permeia diversas áreas do conhecimento, da biologia à química. “Como exemplo, podem ser citados o desenvolvimento de IFAs (Insumos Farmacêuticos Ativos) para a produção de antibióticos, área na qual o Brasil é totalmente dependente de importação. De maneira similar, a utilização de estratégias de Biologia Sintética apresenta como potencial para produção de insumos de plantas, de síntese química ou de outros microrganismos, como alternativa a substâncias cuja obtenção em escala industrial apresenta maior grau de complexidade”, frisa.

Projetos – O Departamento de Biotecnologia vem atuando na transferência de tecnologia para produção de insulina humana recombinante, em parceria com a Indar, da Ucrânia. A absorção em escala de bancada já foi concluída. Agora, a equipe do Serviço de Bioprocessos encontra-se envolvida na etapa de aumento da escala para 30 litros de fermentação. A infraestrutura estabelecida após a obra de adequação poderá ser utilizada em outros projetos internos e de interesse institucional. Dois deles foram aprovados recentemente no Programa Inova Fiocruz.

Canabidiol e antibióticos – Um dos projetos foi aprovado no edital Ideias Inovadoras, e envolve a proposição de uma rota biossintética para a obtenção de canabidiol utilizando microorganimos geneticamente modificados. O segundo foi aprovado por meio do edital Geração de Conhecimento – Novos Talentos, e propõe uma estratégia nova para a obtenção de Penicilina G acilase, uma enzima importante para a geração de intermediários necessários à produção de insumos derivados da penicilina G, como a ampicilina e a amoxicilina, por exemplo, bem como as cefalosporinas.

“Em perspectiva, temos projetos que poderiam ser expressos em microorganismos por meio de técnicas de biologia sintética. Estamos preparando o laboratório para uma possível certificação em Boas Práticas de Laboratório (BPL), o que permitiria uma maior versatilidade para utilização dos lotes de desenvolvimento. Além dos projetos internos, o Serviço de Bioprocessos está capacitado para executar atividades de cooperação técnica, desenvolvimento de bioprocessos, transferência de tecnologia, treinamento e qualificação de força de trabalho”, conclui Graziela Pacheco.

Alexandre Costa é Gente de Far

Família. Esta palavra não só define o nosso entrevistado do Gente de Far, mas também é um dos motivos que o move. Em seu tempo livre, ele gosta de estar com os filhos, Bruna e Lucas, e com a esposa Luciana, com quem é casado há 22 anos. Sua fonte de inspiração? Nada menos do que seus pais, de quem ele tanto sente admiração. E se o assunto for legado? A resposta está em Eduardo, seu irmão caçula, que seguiu sua profissão (Químico). Conheça a história e a trajetória profissional de Alexandre Costa, do Serviço de Bioprocessos.

Nascido no Rio de Janeiro, o filho mais velho de Antônio e Ciléia teve uma infância normal, ao lado dos irmãos Leandro e Eduardo. Gostava de jogar bola na praça e de brincar de bola de gude, pique-esconde e de polícia e ladrão. Outra diversão era ir para o sítio do avô, no interior de Japeri, onde tomava banho de cachoeira, de rio e, ainda, subia em árvores.

Já na adolescência, Alexandre tinha outro hobby: consertar as coisas, principalmente eletrônicos. Ele tinha vários equipamentos em casa, como placas, alicates e ferro de solda. Costumava se distrair fazendo circuitos. Nesta época, ele pensava em seguir carreira nesta área. Entretanto, não foi o que aconteceu.

A paixão pela química, uma de suas matérias favoritas, ao lado de matemática e física, o levou a fazer o ensino médio técnico na Escola Técnica Federal de Química. Lá, fez o curso técnico de Biotecnologia, que estava sendo implementado no Brasil na época e era muito promissor, já que estava sendo considerada a profissão do futuro. E foi nesta área que Alexandre tem desenvolvido e consolidado a sua carreira. Além de Técnico em Biotecnologia, ele é Mestre em Polímeros pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Químico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Sobre sua experiência profissional, ele começou sua trajetória em um laboratório de genealogia, que realizava análise de DNA, onde ficou cerca de um ano. Em seguida, trabalhou na Merck, atuando por 15 anos, como pesquisador e desenvolvedor de produtos naturais.

Foi nessa indústria que viveu um dos momentos mais marcantes da sua profissão: um princípio ativo antiinflamatório que foi incorporado a um creme tem seu nome na patente do método de extração. Trata-se do tilirosideo. Na ocasião, ele participou de todo o processo de extração e purificação do princípio ativo da planta, desenvolveu a escala de laboratório e a piloto. Posteriormente, foi para a fábrica da empresa em São Luís, no Maranhão, para treinar os colaboradores para rodar o produto em escala industrial e produzir três lotes para avaliação, além de, em paralelo, estar envolvido com todos os trâmites que envolvia tal método (custos, matérias-primas, qualidade, logística etc).

“Foi um desafio muito grande, não somente por todo trabalho envolvido, mas também por ser a primeira vez que eu fiquei exposto a esse tipo de situação. Eu estive envolvido em todo o processo e fiquei responsável pela maior parte dele, inclusive em relação à produção. Eu agia como um ponto de interseção entre as áreas. No fim, de tudo certo Os lotes foram aprovados”, conta.

Depois da Merck, Alexandre trabalhou por dois anos e meio numa indústria química de polímeros. Logo após, em 2012, chegou em Farmanguinhos para compor a equipe do Serviço de Bioprocessos, ligado a Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico (CDT), lotado no campus Manguinhos.

“Eu vim com a proposta inicial de atuar no Projeto Insulina, uma Parceria de Desenvolvimento Produtivo com a empresa Indar para absorção de tecnologia. Com isso, eu e meus colegas de equipe fomos algumas vezes para a Ucrânia para recebermos treinamento dos processos. Foi uma experiência enriquecedora. Em Far, minha rotina é dinâmica e ligada aos projetos do laboratório. Nossa equipe é multidisciplinar e altamente qualificada, o que permite uma troca de experiência engrandecedora. Hoje, além do projeto insulina, que já se encontra em fase de finalização, eu também atuo em dois novos projetos do setor, onde pesquiso métodos de purificação e de análises dessas biomoléculas”, enfatiza.

Alexandre com a equipe do Serviço de Bioprocessos

Além da química, o que mais faz os olhos de Alexandre brilharem? Acertou quem disse sua família! Como dito na introdução, são essas pessoas que fazem a vida dele ter sentido… “Eu vivo o meu sonho, que era ter uma família bem constituída. Não há prazer maior pra mim do que estar com a minha família, de curtir meus filhos, de viajar com eles. Todas as noites nos reunimos para agradecer a Deus e também para pedir graças para o dia seguinte”, revela.  

E a gratidão não para por aí, Alexandre também se orgulha de seus pais e comenta o quanto eles o inspiraram: “Tenho muita admiração pelo meu pai, por toda sua determinação e luta. Já a minha mãe, muito me influenciou a ser quem eu sou hoje, no que diz respeito aos estudos e em meu caráter.

Por fim, após conhecer a história de Alexandre, não há como não lembrar do autor britânico Sir John Bowring, que disse: “Uma família feliz nada mais é que o paraíso antecipado”. Sem dúvidas, a maior riqueza do nosso entrevistado.

Maria José Alves é Gente de Far

“Querer é poder”. Quem nunca ouviu essa frase? Pode parecer até clichê, mas essa citação define muito a nossa entrevistada do Gente de Far, que começou sua carreira na unidade, em 2005, como auxiliar de serviços gerais, e, sempre que limpava algum laboratório, se imaginava trabalhando naquele local. Com muito esforço, se formou em Biologia e há 9 anos atua na Seção de Controle Microbiológico, dentro do laboratório, analisando medicamentos, matérias-primas, materiais de embalagem, água e o ambiente fabril. Conheça a história e a trajetória profissional de Maria José Alves.

Uma mistura da mãe e do pai, tanto no nome quanto na personalidade. Zezinha, Zezi, Zequinha, Zé, Zezé… cheia de apelidos, ela revela que, quando criança, não gostava do nome. “Eu não gostava do meu nome e sempre dizia que, quando eu crescesse, que tivesse 18 ou 19 anos, eu iria mudá-lo. Teve uma época que eu queria me chamar Gabriela, depois Marisa. Inclusive, na oitava série, eu assinava as provas como Marisa e os professores ficavam loucos, pois não havia ninguém com esse nome na turma. Minha mãe foi chamada na escola e eu apanhei por isso”.

Criada no bairro de Vargem Grande, onde mora até hoje, a filha da dona Nair Maria e do seu José teve uma infância simples. Ela e seus sete irmãos, sendo uma antes da caçula, cresceram em um sítio, onde seu pai mantinha uma plantação de banana para garantir o sustento da família. Com carinho, ela relembra dessa época:

“Minha mãe era do lar e meu pai, feirante. Ele plantava banana e vendia na feira da Rocinha. Éramos pobres, mas felizes. Eu era muito levada e apanhava todos os dias da minha mãe. Já fiz muita arte, como jogar pedra no telhado do vizinho e tacar fogo no galinheiro. Naquela época, não tínhamos muitos recursos e brinquedos como hoje, mas a gente se divertia muito. Eu gostava de brincar de cozinhar usando um fogão improvisado de pedra e panelas feitas com latas de sardinha e de leite. Também brincava de pique lateiro, amarelinha… Eu tive uma infância muito boa”, conta.

E se tinha algo que Zezé detestava, quando nova, era estudar. Sua mãe sempre falava da importância dos estudos, mesmo sem muita instrução, mas ela nunca deu atenção. Inclusive, ela ficou 22 anos longe da escola por opção (algo que se arrepende).  Mas sua percepção mudou quando entrou em Far, onde vislumbrou a oportunidade de retomar seus estudos e crescer na instituição, tornando-se uma referência para sua família, sendo a primeira com ensino superior.

“Imagina a honra da minha mãe se ela estivesse viva. Logo eu, a rebelde, que fugiu da escola, ser a primeira a se formar. Na verdade, a única entre os meus irmãos. Ela ficaria muito orgulhosa”, ressalta.

Mas antes de falarmos sobre essa história de superação, precisamos retomar a sua trajetória no Instituto. Emocionada, Zezé narra como chegou aqui:

“Eu entrei aqui, em 2005, para trabalhar como auxiliar de Serviços Gerais. Eu fiquei impressionada com o que vi (um lugar grande e cheio de computadores), algo que eu não estava acostumada. Eu limpava as salas, mas o que mais chamava a minha atenção eram os laboratórios. Eu me imaginava trabalhando em um deles. Com o tempo, o interesse aumentava e foi aí que decidi investir nos estudos. Eu havia terminado o segundo grau, em 2002, e, com o dinheiro que sempre sobrava do meu salário, e com o incentivo dos meus colegas de trabalho, comecei a fazer faculdade de Biologia na Souza Marques. O mais engraçado é que, quando eu era pequena, eu era fascinada por essa instituição de ensino, eu amava o uniforme e sonhava em estudar lá, mas meus pais não tinham condições. Depois de tanto tempo, eu consegui”.

Fotos do período em que trabalhava como auxiliar de Serviços Gerais

Em 2007, com o término do contrato da empresa de limpeza, Zezé saiu de Far. “Eu não queria sair daqui de jeito nenhum, mas a empresa que entrou estava oferecendo um salário muito baixo. Eu precisava manter meus estudos”, conta.

No ano de 2009, ela recebe um convite para voltar ao CTM. Desta vez, para trabalhar no restaurante, como auxiliar administrativo. “Eu nem acreditei que eu estava voltando a trabalhar em Farmanguinhos. Quando cheguei aqui, quase que eu beijei o chão! Eu agradeci tanto a Nossa Senhora da Penna (igreja que fica no alto de uma pedra e que conseguimos ver aqui do CTM). Chorei e tudo, pois tenho paixão e orgulho em trabalhar nessa instituição, de contribuir, de alguma forma, com a saúde da população”, revela.

Mas a atuação no restaurante durou apenas um ano. Em 2010, por intermédio da sua chefe imediata do restaurante, Ivana, conseguiu transferência para a Microbiologia, onde passou a atuar como auxiliar de laboratório e a colocar em prática os ensinamentos que estava obtendo na faculdade. E lá se vão 9 anos se dedicando as análises de cada etapa do processo produtivo.

No Laboratório de Microbiologia, ao lado das amigas Patrícia e Carla.

Engana-se quem pensa que Zezé sempre sonhou em ser bióloga. “Eu fiz auxiliar de Primeiros Socorros e auxiliar em Enfermagem, na Cruz Vermelha. Gostei tanto de Enfermagem, que resolvi fazer o Técnico no Curso Tavares Lira.  Queria fazer faculdade, mas era muito cara. Por indicação, optei pela Biologia, já que também me permitiria trabalhar na área de saúde e atuar em laboratório. Comecei a pesquisar e me interessei. Além disso, também contei com o incentivo de amigos de Far, como a Neuza Orlando, Jorge Alexandre (que não trabalha mais aqui), Patricia Costa e Carla Mororó. Essas últimas, me ajudaram muito. Tudo o que eu sei, eu aprendi com elas. Ao final, eu acabei me identificando com a Biologia. Entretanto, em Far, eu consigo atuar nas minhas demais áreas de conhecimento, uma vez que faço parte da Brigada de Incêndio da unidade. Uma oportunidade para ajudar e ainda fazer o que gosto”, expõe. 

Orgulhosa, Zezé mostra os resultados obtidos após uma análise de água.

Sobre a sua rotina, ela explica como funciona a atuação da Microbiologia: “Imagina que você precisa fazer um bolo. Você tem que avaliar a forma, os ingredientes… assim é a Microbiologia, para produzir um medicamento, é necessário analisar tudo que irá compô-lo, não só as matérias-primas, como também os maquinários e o local da fabricação”.

Maria José fazendo análises dentro da Sala de Testes

Quando questionada sobre o seu maior desafio profissional, ela não titubeia e responde: “A primeira vez que eu trabalhei sozinha na sala de teste, onde os produtos são avaliados, foi muito desafiador. Na ocasião, analisei o xarope Sulfato Ferroso. Fiquei receosa no início, pois são muitas informações e detalhes que precisam de atenção, mas no fundo eu sabia que eu podia, que eu estava preparada. Por isso que eu digo que todo mundo é capaz de aprender alguma coisa, mesmo com toda dificuldade. Se você quer, você pode”.

E quem disse que ela está satisfeita? Em relação ao futuro, Zezé anuncia seus planos: “Quero retomar a pós-graduação em Microbiologia e fazer faculdade de Química”.

 

Semana Nacional de Ciência e Tecnologia na Fiocruz

Farmanguinhos participará com oficina sobre plantas medicinais e as etapas da cadeia produtiva de uma indústria farmacêutica.

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Benjamim Gilbert é Gente de Far

Um dos pioneiros em estudos de fitoterápicos no país completa 90 anos de vida em plena atividade, atuando ativamente no CIBS e ampliando o seu legado na instituição

Que Dr. Gilbert é um pesquisador renomado e uma das principais autoridades na área de química de produtos naturais, destacando-se no campo da fitoterapia, todos já sabem. O que nos impressiona é vê-lo, aos 90 anos recém-completados, trabalhando ativamente em Farmanguinhos, no Centro de Inovação em Biodivesidade e Saúde (CIBS), e contribuindo para o grande legado que a instituição tem nessa área.

Com mais de 60 anos dedicados à pesquisa com ênfase na inovação em medicamentos da biodiversidade, o pesquisador mantém a sua rotina laboral em pleno vapor.

Todos os dias levanta cedo, sai da sua casa na Urca e encara o transporte público até o CTM.  Durante a viagem, aproveita o tempo para ler revistas especializadas e livros. Consigo, ele carrega sempre um caderninho e uma caneta, onde faz algumas anotações sobre o seu dia e lugares aonde esteve. Hábito que possui há alguns anos e que já acumula dezenas de livretes.

No seu dia a dia, como parte de suas atribuições, compartilha dados sobre plantas medicinais, considerando a química, a farmacologia, a toxicologia e o histórico. Tudo feito diretamente do computador, pela internet, algo impossível de se imaginar no início da sua carreira.

Quem pensa que aos finais de semana ele descansa, engana-se. Dr. Gilbert ainda tem fôlego para se dedicar às causas sociais. Há 13 anos ele participa de um trabalho com moradores de rua, no centro da cidade. “Gosto desse trabalho, de conversar com essas pessoas. É algo simples, mas faz uma diferença enorme para elas, que se sentem “gente”, aceitas pela sociedade”, comenta.  Antes desse projeto, ele já havia dado aula de escola dominical a crianças, em comunidades, por 20 anos.

Infância

Nascido em 27 de setembro de 1929, no leste da Inglaterra, Ben (como era chamado pela família) teve uma infância simples e, ao mesmo tempo, muito dura.

O filho caçula de William e Dorothy, gostava de brincar na rua com o irmão, Francis, dois anos mais velho, e os amigos, além andar de bicicleta e de colecionar insetos, sapos e selos. Mas, aos 10 anos, esse cotidiano tranquilo mudou. Ben se viu diante de uma situação difícil: com o início da Segunda Guerra Mundial e da ameaça de invasão à Inglaterra, teve que se afastar dos pais e se transferir para casas particulares no centro do país, juntamente com outras crianças. Com isso, precisou aprender a lidar com dinheiro e administrá-lo para comprar, dentre outras coisas, material escolar.  Os pais e as crianças se viam uma vez por ano e tinham notícias através de cartas. “Não tínhamos telefone e carro particular não circulava na guerra.  Voltamos para a nossa cidade e para os nossos pais, em 1942, quando o risco de invasão se afastou”, relembra.

Após a segunda guerra, a família de Ben passou a cultivar legumes e hortaliças em seu jardim como forma de sustento. É neste cenário que Gilbert descobre sua vocação, uma vez que precisou encontrar meios naturais para tratar e controlar as pestes que atacavam a plantação da sua família. Com isso, conheceu dois inseticidas naturais da floresta Amazônia e aprendeu a adubar a plantação com esterco de cavalos, que se abundavam com a falta de gasolina. “Foi assim que aprendi o cultivo orgânico e o uso racional de recursos naturais”, conta.

Foi no segundo grau que ele passou a ter contato com a ciência e a matemática. Durante as aulas de química, o jovem Ben fazia diversas experiências.  Já as de matemática, se desafiava a fazer os exercícios mais complexos.  Nessa fase, como fator crucial, teve como inspiração um de seus professores, Sr.Ransome, mais idoso e o único que mão foi para a guerra, com quem aprendeu a entender e a se encantar pela química fazendo diversos experimentos.

“O sr. Ransome falava que não devíamos nos contentar com as informações que tínhamos nos livros ou que ouvíamos falar. Uma vez, ele perguntou a um colega da turma qual era a fórmula da água e o menino respondeu que era H2O. Ele questionou como ele sabia que era essa composição, que respondeu que leu no livro. Foi quando ele disse que deveríamos verificar antes de tomar aquela resposta como verdade. Eu fiquei com isso na cabeça e até hoje eu checo tudo antes de confirmar algo. Ele também me incentivava a fazer experimentos. Eu aproveitava meu tempo livre para ir para o laboratório da escola para fazer sínteses e descobrir coisas novas”, revela. 

Trajetória Profissional

Com formação em Química e doutorado em Química Orgânica, ambas pela universidade de Bristol, Dr. Gilbert já demonstrava seu potencial no doutorado quando descobriu uma substância 100% levo-rotatória, a partir de matérias primas sem atividade ótica, algo inédito e que lhe concedeu o título de Doutor sem necessidade de defesa de tese. Em seguida, fez pós-doutorado pela universidade Wayne State e enfatizou, ainda mais, a sua carreira na área de produtos naturais.

Em 1958, recebeu convite do professor Carl Djerassi, seu orientador do Pós-doutorado, para viajar ao sul do México e ficar por cinco dias conhecendo a floresta tropical. Lá, através do professor, recebeu um convite para viajar ao Brasil para trabalhar com o professor Walter Mors no Instituto de Química Agrícola (IQA) do Ministério da Agricultura (atual Embrapa). Depois disso, passou por diversas instituições, como o Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais (NPPN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde também atuou como professor visitante, a Companhia de Desenvolvimento Tecnológico (CODETEC), o Instituto de Pesquisas da Marinha – IPqM dentre outras, até chegar a Fiocruz, em 1986.

Reconhecimento

Reverenciado durante 4ª edição do Simpósio Internacional (Foto: Alexandre Mattos)

Reconhecido e homenageado por várias instituições nacionais e internacionais ao longo da sua carreira, Gilbert é autor de 120 publicações científicas abrangendo a química de plantas nativas, algumas medicinais, e o controle de doenças endêmicas.  Tal material serve de referência para estudos com vegetais. Além disso, em Farmanguinhos, há um prêmio que leva o seu nome, com objetivo de incentivar novos estudos, para trabalhos de profissionais e alunos de pós-graduação apresentados em três áreas de atuação (Pesquisa, Desenvolvimento e Gestão). Essa honraria é entregue durante o Simpósio Internacional sobre Desafios e Novas Tecnologias na Descoberta de Fármacos e Produção Farmacêutica.

As homenagens por tudo o que ele representa não param por aí. Em comemoração pelos seus 90 anos, o Centro de Inovação em Biodivesidade e Saúde (CIBS) está elaborando uma biografia para contar a história do pesquisador, desde a sua infância até os dias atuais.  A previsão é que esteja pronta até o final deste ano.

Desafios

Mas a trajetória do pesquisador não é feita só de conquistas. Quando questionado sobre o momento mais difícil da sua carreira, Dr. Gilbert responde:

“Não tive nenhum momento difícil na minha carreira, mas tive projetos que me causaram frustração. Aqueles que eu pude identificar, mas não consegui que eles seguissem adiante. Eu poderia fazer uma lista desses projetos, de plantas ou produtos, que poderiam controlar determinada doença ou praga e não são desenvolvidos, ficam na publicação por falta de visão das autoridades, que não acreditam na fitoterapia ou no poder da complexa tecnologia embutida na biodiversidade que permite a continuidade de vida na terra. O motivo comercial aconselha-nos a transformar a substância da planta em outra substância sintética para poder registrá-la. Assim se descarta a formulação otimizada da planta, programada para permanecer ativa indefinidamente, livre da resistência comum às drogas sintéticas”, lamenta.

Conselho

Para os novos e futuros pesquisadores, ele deixa o seguinte ensinamento:

“É importante fazer o que se gosta e, principalmente, se qualificar. Aqui no Brasil, principalmente, o diploma (papel) é fundamental. Quem tem doutorado, por exemplo, ganha mais. Entretanto, nem sempre, ter doutorado significa alguma coisa, já que o conhecimento não é aplicado. É preciso sair da teoria e ir para a prática. Hoje, os pesquisadores deveriam dar atenção aos problemas sociais, como as doenças mentais, álcool e drogas, as parasitoses comuns à área rural, as viroses, a tuberculose decorrente em parte da má distribuição de renda… Não é fácil de resolver, já que a mentalidade humana é egoísta e não pensa em ajudar quem está atrás. Mas é preciso objetivar a pesquisa em algo útil, essa é uma filosofia que dá entusiasmo para continuar”.

Fórmula da Longevidade

Se ele pensa em parar? Claro que não! “O Brasil não tem fim. Eu poderia trabalhar aqui por mais uma vida de 90 anos”, ressalta.

Com isso, depois de ler essa matéria, você deve estar se perguntando: Qual é o segredo de tanta longevidade? Como ele consegue chegar aos 90 anos tão ativo, lúcido, e com essa disposição? E ele nos responde:

“Eu tenho a minha crença religiosa que me faz recorrer a Deus para me ajudar. Nunca me faltou emprego e eu nunca tive nenhum problema sério de saúde.  Também acredito que devemos manter uma atividade física, além da mental. Hoje, o carro é um inimigo porque a pessoa entra no veículo, vai para o trabalho e volta, sem fazer nenhum exercício. Atualmente, eu venho trabalhar de condução pública e assim preciso subir e descer escada, entre metrô e ônibus”, revela.

Sem dúvidas, uma inspiração para todos nós.

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