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Atenção a crianças com esquistossomose

Farmanguinhos integra grupo internacional voltado para o desenvolvimento do medicamento Praziquantel pediátrico


Na última semana (de 11 a 13 de janeiro), os colaboradores do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) Daniel Lacerda, Juliana Soares e Margareth Gallo, que atuam na Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico da unidade, participaram da primeira reunião técnica da equipe que integra o time CMC (sigla em inglês para Química, Produção e Controle) do Consórcio Praziquantel Pediátrico em 2017. O encontro contou com a presença de representantes do laboratório Merck, e foi realizado nas dependências deste laboratório na cidade alemã de Darmstadt.

Durante o Congresso Europeu de Saúde e Medicinal Tropical, realizado na Suíça em 2015, Daniel Lacerda explicou aos visitantes alguns detalhes sobre a iniciativa (Acervo pessoal)

Durante o Congresso Europeu de Saúde e Medicinal Tropical, realizado na Suíça em 2015, Daniel Lacerda explicou aos visitantes alguns detalhes sobre a iniciativa (Acervo pessoal)

O Consórcio Praziquantel Pediátrico é uma iniciativa conjunta internacional que visa elaborar uma formulação deste medicamento contra a esquistossomose mais adequada para as crianças menores de seis anos de idade. Ao todo, o grupo é integrado por sete instituições. Por se tratar de questões relacionadas à produção, nesta reunião, especificamente, participaram Merck e Farmanguinhos, por serem responsáveis, respectivamente, pelo projeto como um todo e pela produção do medicamento.

Gerente do projeto na unidade, Daniel Lacerda explica que o processo de desenvolvimento do Praziquantel (PZQ) pediátrico encontra-se na etapa de testes clínicos de fase II, ou seja, neste momento, busca-se a definição da melhor formulação e da dose. Os estudos estão sendo realizados em um grupo de crianças da Costa do Marfim, na África, diagnosticadas com esquistossomose. Em seguida, o medicamento será submetido a ensaios clínicos de fase III, isto é, a formulação e dose selecionadas na fase II será testada num grupo maior de pacientes a fim de avaliar a segurança e a eficácia do produto.

“Nesta reunião, discutimos o cronograma e os detalhes da transferência de tecnologia da formulação, processo de fabricação e análise do L-Praziquantel para Farmanguinhos. Está prevista ainda para este ano, possivelmente em março, uma visita técnica da equipe da Merck ao Complexo Tecnológico de Medicamentos (CTM) de Farmanguinhos, para acompanhar a produção de um lote industrial do medicamento”, explicou Lacerda. Ele informou ainda que, até o fim deste ano, deverá iniciar a terceira fase dos testes com a nova formulação do Praziquantel. O registro do medicamento está previsto para final de 2018 e início de 2019.

Os estudos clínicos de fase II estão sendo realizados em um grupo de crianças da Costa do Marfim, na África, diagnosticadas com esquistossomose (Arquivo)

Os estudos clínicos de fase II estão sendo realizados em um grupo de crianças da Costa do Marfim, na África, diagnosticadas com esquistossomose (Arquivo/Consórcio Praziquantel Pediátrico)

A esquistossomose é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a segunda principal doença parasitária e infecciosa, atrás apenas da malária. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, dos mais de 249 milhões portadores desta patologia em todo o mundo, metade é constituída por crianças, sendo 10% do total com idades pré-escolares (abaixo de seis anos). Apesar deste indicador, o único fármaco empregado na terapia contra a doença, o Praziquantel, ainda não apresenta formulação adequada a essa faixa etária.

Parceiros – O Consórcio Praziquantel Pediátrico foi estabelecido em julho de 2012 como a primeira parceria público-privada internacional sem fins lucrativos relacionada à luta contra a esquistossomose, e apoiada por líderes especializados mundialmente em doenças infecciosas parasitárias tropicais:

Merck – A empresa lidera o programa e fornece competência e apoio relacionado ao PZQ, incluindo recursos internos de diferentes áreas necessárias para o desenvolvimento clínico – fabricação do fármaco, pré-clínico, clínico e regulatório. É também responsável pelo desenvolvimento e fabricação do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) L-PZQ;

Astellas Pharma Inc. – A empresa farmacêutica desenvolveu as novas formulações pediátricas de PZQ e fornece aconselhamento especializado no desenvolvimento clínico para crianças e modelamento farmacocinético;

Swiss Tropical & Public Health Institute – O instituto sem fins lucrativos é internacionalmente reconhecido por suas pesquisas, serviços, ensinamentos e treinamentos em saúde global. Contribui com vasta experiência em pesquisa biológica e farmacológica, epidemiologia e pesquisa clínica relacionada a helmintos em regiões endêmicas;

Lygature – É uma fundação holandesa sem fins lucrativos, atua como um coordenador independente do Consórcio, fornecendo a gestão nos termos de progresso, finanças e colaboração. Desde 2006, a Lygature apoiou quase cem parcerias público-privadas no campo da ciência e saúde, incluindo doenças relacionadas à pobreza;

SimCYP – Baseada no Reino Unido, a empresa de pesquisa fornece capacidades e competência para o modelamento farmacocinético;

Schistosomiasis Control Initiative – A Iniciativa de Controle da Esquistossomose, do Imperial College London, tem como objetivo fornecer tratamento à população rural carente da África subsaariana e do Iêmen contra a esquistossomose e três outros helmintos transmitidos pelo solo. A SCI facilitará a preparação e a implementação do plano de Acesso e Distribuição;

Farmanguinhos – O Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) é um laboratório farmacêutico da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), vinculado ao Ministério da Saúde do Brasil. A unidade fornece competência única para abordar a produção e distribuição das novas formulações pediátricas em países endêmicos.

Produção de dengueTech

BR3 investirá R$ 20 milhões na fábrica que produzirá o biolarvicida desenvolvido por Farmanguinhos

 

Elizabeth Sanches entre Rodrigo Perez e assessora da BR3 S.A. Eles apresentaram o DengueTech durante seminário sobre dengue, zika e chikungumya realizado na Fiocruz (Foto: Edson Silva)

Elizabeth Sanches entre Rodrigo Perez e assessora da BR3 S.A. Eles apresentaram o DengueTech durante seminário sobre dengue, zika e chikungumya realizado na Fiocruz (Foto: Edson Silva)

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente da BR3 S.A, Rodrigo Perez, disse que investirá R$ 20 milhões na fábrica que produzirá o biolarvicida DengueTech. O produto foi totalmente desenvolvido pela equipe de Farmanguinhos, liderada pela pesquisadora Elizabeth Sanches, que isolou a bactéria Bacillus thuringiensis (BTi), encontrada em solo nacional. A tecnologia foi depois transferida para a BR3, empresa 100% nacional, que venceu o edital público para produção e comercialização do produto.

Devido à ausência de toxicidade, o que confere segurança aos aplicadores e à população de um modo geral, a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza o uso de biolarvicidas à base de BTi como o mecanismo mais eficaz de ação contra o Aedes aegypti, mosquito transmissor de dengue, zika e chikungunya.

Leia abaixo a íntegra da notícia publicada na Folha de S.Paulo, edição desta terça-feira (18/1).


Fábrica vai fazer inseticida de bactérias contra Aedes aegypti

A BR3, empresa de tecnologias química e biológica, vai investir R$ 20 milhões em uma fábrica em Taubaté na qual produzirá um inseticida contra o Aedes aegypti

 

O produto é um tablete que se dissolve na água. Ele contém uma bactéria que se alimenta da larva do mosquito que transmite dengue, zika e chikungunya. “A bactéria existe na natureza, quem já tomou água da cachoeira já bebeu muito dela”, diz Rodrigo Perez, diretor executivo da companhia. A BR3, que foi auxiliada pela Investe SP para encontrar o local para a fábrica, tenta obter autorização da Anvisa para que o tablete possa ser colocado em água potável.

A ideia é que, com isso, o inseticida seja aplicado em reservatórios domésticos em casas de áreas carentes, com financiamento do poder público, segundo Perez. O plano é vender também o tablete em canais de abastecimento tradicionais.

Com informações da Folha de S.Paulo

 

Primeiro medicamento derivado da maconha

Anvisa concede pela primeira vez o registro de um produto à base de Cannabis sativa no Brasil

 

 

Com informações de O Globo

 

Foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) desta segunda-feira (16/1) o registro do primeiro medicamento derivado da Cannabis sativa no Brasil. A resolução foi assinada na última sexta-feira (13/1), pelo presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Jarbas Barbosa.

 

Trata-se do Mevatyl, indicado para tratar adultos com espasmos prolongados em decorrência de esclerose múltipla. O remédio é composto por 27 mg/mL de tetraidrocanabinol (THC) e 25 mg/mL de canabidiol (CBD).

 

O produto já é aprovado em 28 países, incluindo Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Suíça e Israel. Em vários deles, seu nome comercial é Sativex. No Brasil, ele será classificado como tarja preta, vendido apenas com apresentação de receita. De acordo com a Anvisa, estudos clínicos mostraram que a dependência devido ao uso do Mevatyl é improvável.

 

Conforme noticiado na coluna de Lauro Jardim, a estimativa é que o remédio esteja à venda em 60 dias.

 

Segundo a Anvisa, o medicamento “é indicado para o tratamento sintomático da espasticidade moderada a grave relacionada à esclerose múltipla, sendo destinado a pacientes adultos não responsivos a outros medicamentos antiespásticos e que demonstram melhoria clinicamente significativa dos sintomas relacionados à espasticidade durante um período inicial de tratamento com o Mevatyl”.

 

SEM INDICAÇÃO PARA EPILEPSIA E MENORES DE IDADE

A Anvisa resslta que o medicamento não é indicado para tratar epilepsia, uma vez que uma de suas substâncias ativas, o THC, tem o potencial de agravar as crises epiléticas. O Mevatyl também não é recomendado para crianças e adolescentes até os 18 anos, porque não há estudos comprovando segurança e eficácia para esta faixa etária.

 

O medicamento será fabricado por GW Pharma Limited, no Reino Unido, e a detentora do registro do remédio no Brasil é a empresa Beaufour Ipsen Farmacêutica Ltda, da cidade de São Paulo.

 

Até agora, a Anvisa só havia liberado a importação de medicamentos à base de cannabis, e não registrado algum deles, permitindo sua venda dentro do país.

 

Notícia completa – Para ler a íntegra da matéria publicada no sítio da Anvisa, clique aqui.

Presidente da Fiocruz apresenta equipe

A presidente da Fundação, Nísia Trindade, apresentou os nomes dos novos vice-presidentes para homologação do Conselho Deliberativo da Instituição

César Guerra Chevrand (Agência Fiocruz de Notícias)

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, apresentou os nomes dos novos vice-presidentes para homologação do Conselho Deliberativo e algumas mudanças na estrutura de gestão da Presidência na reunião realizada na manhã da última segunda-feira (9/1), na Residência Oficial, no Campus Manguinhos. Nísia destacou os objetivos gerais da composição da equipe da Presidência para a gestão 2017-2020, como o fortalecimento da capacidade de coordenação; a integração entre os diversos setores da Presidência e com as unidades; a transversalidade; o fortalecimento da capacidade de escuta e diálogo; e a orientação estratégica. Clique aqui e veja a apresentação com os nomes da nova equipe. Para assistir a fala da presidente, acesse o link https://youtu.be/uOjkL6yPYpc

A presidente da Fiocruz falou da emoção e da responsabilidade de ser a primeira mulher a presidir a Instituição (Foto: Peter Ilicciev - CCS)

A presidente da Fiocruz falou da emoção e da responsabilidade de ser a primeira mulher a presidir a Instituição (Foto: Peter Ilicciev – CCS)

A Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde tem à frente Marco Antonio Carneiro Menezes, formado em Ciências Biológicas em mestrado em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) e vice-diretor de Ambulatórios e Laboratórios da Escola desde 2013. Valcler Rangel, que ocupava o cargo, é o chefe de gabinete da Presidência. A pasta ocupada pela presidente eleita teve o nome alterado: passa a ser Vice-Presidência de Educação (em vez de Ensino), Informação e Comunicação.

O até então diretor do Centro de Pesquisa Gonçalo Muniz (CPqGM/Fiocruz Bahia), Manoel Barral Neto, é o novo vice-presidente de Educação. Barral é médico com doutorado em Patologia Humana e diretor de Cooperação Institucional do CNPq entre 2011 e 2013. Já a Vice-Presidência de Gestão e Desenvolvimento Institucional passa para as mãos de Mario Santos Moreira, formado em administração de empresas com doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Paraná.

Mudanças – Muda a denominação da Vice-Presidência de Pesquisa e Laboratórios de Referência, que passa a se chamar Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Científicas. O novo vice é Rodrigo Correa de Oliveira, biólogo com doutorado em Imunologia pela Johns Hopkins University e ex-diretor do Centro de Pesquisa René Rachou (CpRR/Fiocruz Minas). Já a vice-presidência de Produção e Inovação em Saúde passa ser liderada por Marco Aurelio Krieger, vice-diretor do Instituto Carlos Chagas (ICC/Fiocruz Paraná). O pesquisador tem licenciatura plena, mestrado e doutorado em Ciências Biológicas e é coordenador da Rede de Insumos para Diagnóstico da Fiocruz.

Nísia Trindade Lima reafirmou o compromisso da Fiocruz com o desenvolvimento sustentável do país (Foto: Peter Ilicciev - CCS)

Nísia Trindade Lima reafirmou o compromisso da Fiocruz com o desenvolvimento sustentável do país (Foto: Peter Ilicciev – CCS)

Ligadas diretamente ao Gabinete, a Secretaria Executiva e a Coordenação de Comunicação Social continuarão ocupadas, respectivamente, por Deolinda Gouvea dos Santos e Maria Elisa Andries. Para melhor organizar a estrutura da Presidência, foram criadas três coordenações: de Vigilância e Laboratórios de Referência, com Rivaldo Venâncio à frente; de Ações de Prospecção, com Carlos Grabois Gadelha; e a Executiva do Complexo dos Institutos Nacionais de Saúde, com Carlos Maciel.

Amadurecimento – Nísia Trindade apresentou os nomes da nova equipe aos conselheiros e em seguida falou das escolhas numa transmissão aberta para a comunidade Fiocruz. “Vivemos aqui na nossa instituição um processo muito difícil envolvendo a minha nomeação, marcado por uma grande intranquilidade, que eu sei que não é superada com o discurso”, afirmou. “Vai ser superada por todos nós, que trabalharemos nessa direção. Os momentos de crise são também momentos de crescimento, de amadurecimento. O aprendizado dessa experiência será uma agenda do nosso congresso interno, até para que possamos avançar na compreensão e nos próximos processos”, disse.

Reunido em Manguinhos (RJ), Conselho Deliberativo homologou os novos vice-presidentes da Fiocruz (Foto: Peter Ilicciev - CCS)

Reunido em Manguinhos (RJ), Conselho Deliberativo homologou os novos vice-presidentes da Fiocruz (Foto: Peter Ilicciev – CCS)

A presidente mostrou-se preocupada com a exposição negativa da instituição durante o processo pós-eleições, quando surgiram questionamento dos seus resultados, da sua transparência e da execução orçamentária. “Nós vamos trabalhar com uma agenda positiva. Também já estou trabalhando com o ministro Ricardo Barros para relações dentro de uma absoluta normalidade”, afirmou. “O espírito da nossa gestão será, como sempre nas gestões anteriores, de um grande compromisso com a nossa missão, nossos valores, com o diálogo, mas com a responsabilidade, que ficou maior ainda diante de todo esse contexto que nós vivemos”.

Autonomia – Em sua fala, Nísia Trindade Lima destacou os desafios que a instituição enfrenta. “Esse aprendizado é para toda a sociedade e coloca em xeque o grau de autonomia que todas as instituições de ciência e tecnologia devem ter e como deve ser o seu processo sucessório e de gestão”, afirmou.  “Instituições de ciência e tecnologia, e também as universidades, precisam ter parâmetros bastante específicos, que respeitem a unidade interna e que não se confundem com aqueles que marcam a vida partidária, que são válidos para outra esfera”. A presidente tratou do tema na reunião com os ministros da Saúde, Ricardo Barros; e da Casa Civil, Eliseu Padilha; e com o secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimentos, Moreira Franco.

“Essa autonomia não implica em nenhuma hipótese numa visão não comprometida de ser um instituto do Ministério da Saúde. Isso sempre foi claro na nossa comunidade e nesse momento precisa ser reafirmado”, disse. “Nós temos o compromisso de atendermos à demanda e de apresentarmos os resultados em torno das grandes questões sanitárias, como foi o caso recente da tríplice epidemia de dengue, zika e chicungunya, e que continua sendo posta em toda a área do complexo industrial da saúde, em toda área de atenção, de pesquisa e de inovação. Isso sempre pensando na autonomia necessária, autonomia científica, autonomia de pensamento para a formulação de políticas públicas”, afirmou.

Nísia falou sobre posicionamentos ideológicos durante a reunião na Casa Civil. “Disse que na minha visão, pessoalmente e também institucionalmente, tinha me incomodado. Não importa se as pessoas têm ligações partidárias ou não – eu não tenho, mas poderia ter, não se trata disso. As ligações não devem ser nem um critério para escolha e nomeação de um dirigente, nem tampouco um critério para vetos ou exclusões. Felizmente, na proposta colocada pelo presidente e pelos os ministros, não foi o critério”, falou. “É muito importante que os meios de comunicação mudem a agenda e vejam o que a Fiocruz deve continuar fazendo pela sociedade brasileira e o que ela deve aprimorar”.

Mulheres – No início de seu discurso, a presidente da Fiocruz falou da emoção e da responsabilidade de ser a primeira mulher a presidir a Fiocruz. “Quero dizer que essa condição vai ser vivida de uma forma muito intensa, considerando que está no nosso programa uma atenção especial ao tema das ações afirmativas da Fiocruz e a agenda de gênero e saúde”, lembrou. “Sobretudo, teremos um olhar que envolve homens e mulheres. Que todos trabalhemos juntos por essa agenda efetivamente democrática e cidadã. Nós, mulheres, que hoje somos 56% dos servidores e 60% daqueles que estão na atividade de pesquisa, finalmente teremos essa alta representação. O simbolismo disso é muito grande.

 

 

Projetos na UFRJ e Fiocruz para desenvolver medicamento à base de maconha

Pesquisadores das duas instituições vão analisar composição, segurança e eficácia dos extratos de Cannabis usados com fins medicinais no país

Por Cesar Baima I O Globo

RIO – O verde da maconha em breve pode ganhar tons amarelos, reproduzindo as cores nacionais do Brasil. Cada vez mais utilizados como tratamento alternativo para diversas condições de saúde, dos enjoos provocados pela quimioterapia contra o câncer a convulsões incontroláveis por remédios convencionais em crianças, compostos da planta, como o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), são alvo de projetos de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que devem levar ao desenvolvimento do primeiro fitomedicamento à base de maconha no país. Com isso, o uso das substâncias ganhará rigor científico e padronização ainda inéditos no mundo, guiando sua aplicação terapêutica.

— A situação que temos hoje é complicada — justifica Virgínia Martins Carvalho, professora de Toxicologia da Faculdade de Farmácia da UFRJ. — A maconha e substâncias nela contidas têm propriedades terapêuticas reconhecidas internacionalmente, e disso não há dúvidas, mas ainda há uma confusão muito grande para seu estudo, principalmente por conta da proibição, que dificulta bastante as pesquisas.

Pés de maconha: substâncias contidas na planta estão sendo usadas principalmente no tratamento de crianças com epilepsia refratária a remédios convencionais - Matias Maxx

Pés de maconha: substâncias contidas na planta estão sendo usadas principalmente no tratamento de crianças com epilepsia refratária a remédios convencionais – Matias Maxx

Diante disso, Virgínia apresentou e teve aprovado este mês um projeto de extensão na instituição, intitulado Farmacannabis, cujo objetivo principal é analisar a composição dos extratos de maconha importados ou produzidos artesanalmente, e clandestinamente, no Brasil com fins medicinais. No caso dos extratos importados, embora após muitos protestos e ações na Justiça a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tenha autorizado em caráter excepcional sua entrada no país para o tratamento de crianças que sofrem com a chamada epilepsia refratária, em que os remédios comuns não foram capazes de controlar as convulsões, até recentemente estes produtos eram comercializados como suplementos alimentares nos EUA, e por isso sua fabricação não precisa obedecer a padrões estritos como os de medicamentos.

Projeto orçado em R$ 250 mil – O problema é tamanho que avaliações feitas pela Administração para Alimentos e Drogas (FDA, o órgão fiscalizador do setor no país) de alguns dos extratos mais vendidos nos EUA, entre 2015 e 2016, verificou que quase nenhum deles continha as proporções de CBD e/ou THC indicadas em seus rótulos. Além disso, muitas famílias brasileiras não têm condições de arcar com a compra dos extratos importados — um vidro dos óleos americanos custa por volta de US$ 300 (cerca de R$ 1 mil), e dependendo do peso e sintomas da criança, são utilizados até dois deles por mês —, e acabam plantando maconha e fazendo os compostos em casa, ou obtêm estes de fabricantes artesanais.

— Ninguém sabe de fato qual o grau farmacológico destes extratos, isto é, qual a concentração de CBD e THC neles — conta Virgínia. — Isto dificulta o controle e a eficácia da dosagem, já que, embora o médico possa prescrever e acompanhar o tratamento, ele não tem ideia de exatamente quanto CBD e THC a criança está tomando. Com o Farcannabis, vamos dar suporte analítico tanto para os pacientes e suas famílias quanto para os médicos, além de proporcionar aos estudantes experiência em análises toxicológicas e interação clínica pelo contato com pacientes e médicos.

Ainda de acordo com Virgínia, até o fim do projeto, inicialmente orçado em quase R$ 250 mil, também deverá estar em funcionamento uma plataforma digital de acesso gratuito na qual, mediante inscrição ou cadastro, médicos, familiares e alunos poderão obter mais informações sobre os possíveis usos medicinais da maconha, os resultados das análises feitas durante a iniciativa e como elas foram realizadas.

— A maconha tem cerca de 70 canabinoides e seus ácidos, cada um deles com suas propriedades e efeitos — destaca Virgínia. — Falar do canabidiol como se não estivéssemos nos referindo à planta procura dar uma ideia de afastamento da maconha, o que é uma falácia. Nenhum destes canabinoides existe isolado, e precisamos saber como eles atuam entre si, em particular o THC e o CBD.

Eles têm uma ação dinâmica no sistema nervoso central, num efeito que chamamos de “comitiva”, que é variável de pessoa a pessoa. E é por isso que conhecer suas proporções nos extratos é muito importante. Sabemos que estes extratos ajudam, mas ainda precisamos saber como dentro de um planejamento terapêutico segundo sua composição e dosagem, isto é, porque algumas pessoas se beneficiam mais de extratos que tenham mais THC e outras de extratos com mais CBD. E para isso temos que estudá-los. Só com este monitoramento e os relatos clínicos poderemos conhecer melhor esta associação.

Esta investigação também será fundamental para o projeto na Fiocruz. Lançado em março deste ano com a criação de um grupo de trabalho do qual a própria Virgínia faz parte, o Fio-cannabis discute a viabilidade e formatação de uma ampla e longa pesquisa científica com intuito de, provada sua eficácia e segurança, eventualmente fabricar um fitomedicamento de Cannabis para alívio da epilepsia refratária.

— A ideia é estudar os extratos tanto do ponto de vista de toxicidade quanto de segurança, além de fazer ensaios pré-clínicos e clínicos das fases 1, 2 e 3 para avaliar sua eficácia, isto é, seguir todo o processo necessário para o registro de um medicamento no Brasil junto à Anvisa com foco na epilepsia refratária — diz Hayne Felipe da Silva, diretor do Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz (Farmanguinhos), que encabeça a iniciativa.

Com uma tríade de segurança, eficácia e qualidade igual à de qualquer outro medicamento, o pesquisador pretende chegar a um produto feito no Brasil com custo menor e que possa vir a ser distribuído pelo SUS (Sistema Único de Saúde, do governo federal), além de dar a ele o rigor de medicamento que não há nos EUA.

De acordo com Silva, a expectativa é de que até o fim deste ano o projeto de pesquisa definindo, entre outros fatores, como ela será feita, quantos voluntários serão necessários etc, já esteja pronto para ser encaminhado à Anvisa, com os estudos começando na prática já no ano que vem. Ao todo, ele espera que o processo de desenvolvimento do fitomedicamento leve de cinco a dez anos.

— Temos que começar logo, ainda mais por se tratar de substâncias que têm ação no sistema nervoso central, um complicador adicional.

Silva conta, no entanto, que um dos principais obstáculos que ainda faltam ser superados para dar início efetivo à pesquisa é justamente encontrar um fornecedor regular dos extratos de Cannabis, seja do Brasil ou do exterior, com a qualidade e padrão de composição necessários para uma investigação científica do tipo. O que é certo, porém, é que a Farmanguinhos não vai plantar maconha e produzir os compostos.

— A Farmanguinhos é uma indústria de transformação, então vamos fazer com este produto o que fazemos com os outros medicamentos: compramos o princípio ativo e formulamos o remédio.

Mudança de patamar dos medicamentos – Na outra ponta deste esforço de duas das maiores instituições de pesquisa do Brasil estão pessoas como Sofia. A menina, portadora de CDKL5, doença rara que tem como um de seus sintomas crises convulsivas, é filha da advogada Margarete Santos de Brito, presidente da Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi), e uma das crianças que estão se beneficiando da autorização da Anvisa para importação dos extratos de Cannabis. Segundo Margarete, atualmente Sofia toma um misto de extratos de Cannabis importados e artesanais, além de outros remédios e tratamentos convencionais para sua condição, que ela estima terem reduzido em 70% seus ataques epiléticos.

— Para a gente, estas pesquisas mudam completamente o patamar dos fitomedicamentos de Cannabis no Brasil — avalia. — Como os extratos importados também vão ser testados, teremos um controle de qualidade que não é realizado nem nos EUA, já que as informações em seus rótulos não necessariamente corresponde à realidade.

E a preocupação de Margarete vem de experiência própria. Ela conta que recentemente adquiriu um extrato americano que dizia ser livre de THC, o canabinoide de efeito euforizante da maconha e um dos mais presentes na planta. Antes de dá-lo a Sofia, porém, ela decidiu prová-lo e acabou tendo uma “onda”, o que a fez decidir não administrá-lo à menina.

— Estes extratos entram no Brasil a preço de ouro, são extremamente caros e não têm necessariamente qualidade — reclama. — Já os produzidos artesanalmente aqui podem ser tão ou mais eficientes do que os que vêm dos EUA, mas com eles também não sabemos quais os percentuais de canabinoides que estamos dando para as crianças. Mas, com estas pesquisas, vamos saber.

Para Margarete, também é relevante o fato de os estudos estarem nas mãos de duas renomadas instituições de pesquisa no país.

— Isto serve como um aval de que a maconha pode ser sim um remédio — destaca. — E por mais que este processo de investigação possa demorar, ter um fitomedicamento de Cannabis verde-e-amarelo, ou na verdade mais verde que amarelo, será uma realização muito importante.

Enquanto isso, contudo, Margarete procura garantir a continuidade do tratamento da filha. Na última quinta-feira, a advogada obteve na Justiça um habeas corpus preventivo que proíbe as polícias Civil e Militar do Rio de detê-la e/ou apreender as plantas de maconha que cultiva em casa para produzir os extratos de Cannabis artesanais que dá a Sofia. O salvo-conduto é válido até que seja julgado em definitivo processo que ela move na 14ª Vara Federal do Rio de Janeiro em que pleiteia permissão para cultivar a planta ilícita com fins medicinais.

 

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