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Maraísa Gambarra é Gente de Far

Destemida. Essa característica define a nossa entrevistada que, aos 15 anos de idade, saiu de casa, em Santa Luzia, na Paraíba, e veio morar com a madrinha no Rio de Janeiro para buscar melhores condições de estudos e oportunidades de trabalho. Aos 17, já morava sozinha e era totalmente independente. Tal coragem e determinação refletem a mulher e a grande profissional que se tornou. Conheça a história de Maraísa Gambarra, que atua no Serviço de Gestão de Mudanças e Riscos, vinculada à Vice-diretoria de Gestão da Qualidade (VDGQ).

Mara, como é conhecida pelos familiares e amigos, teve uma infância tranquila, vivida no ritmo manso de uma pequena cidade do interior, ao lado de seus pais, Fátima e Martinho, e do seu irmão caçula Douglas. Estudiosa, aproveitava o tempo livre após as aulas para ir à biblioteca pública, que ficava ao lado da escola em que a sua mãe trabalhava. Enquanto a esperava, sempre pegava um livro emprestado para ler.  Com isso, transformou a leitura em um hobby, que se permeia até hoje. Um dos seus livros favoritos é “Sapiens: Uma breve história da humanidade”, do autor Yuval Noah Harari.

Por influência materna, já que Fátima era professora, Maraísa decidiu ser pedagoga. Não chegou a atuar oficialmente na área, mas desde 2003 realiza um trabalho voluntário na instituição Casa Sentimento, onde alfabetiza e dá reforço escolar para crianças e jovens.

A formação de Farmácia surgiu logo em seguida, quando foi trabalhar na área farmacêutica de uma empresa de Logística, na qual conheceu melhor o segmento, aprendeu sobre a Qualidade e acabou se identificando com ele. Como isso, aproveitou que a organização concedia bolsas de estudos de 70% aos funcionários e decidiu cursar a faculdade para se aprofundar no ramo.

E a partir disso, ela não parou mais…  fez pós-graduação em Gestão da Qualidade, na Universidade de Goiânia, Mestrado em Gestão P&D na Indústria Farmacêutica, em Farmanguinhos e, em abril, começará o MBA em Gestão Estratégica, na Fundação Getúlio Vargas.

“Sempre trabalhei e estudei. Fiz pedagogia, mas a vida me levou para Farmácia. Todos os cursos que fiz me trouxeram muitos desafios, sempre alinhados com a minha formação acadêmica e com o meu desenvolvimento profissional. Durante a minha carreira pude contar com pessoas incríveis, que muito me ensinaram e me ajudaram a evoluir”, revela.

Em Far desde 2011, Maraísa acaba de assumir o Serviço de Gestão de Mudanças e Riscos.

E por falar em carreira, depois de atuar por sete anos nessa empresa de Logística, Maraísa chegou em Far, em 2011, para trabalhar na área de Auditoria Interna, da Vice-diretoria de Gestão da Qualidade. Recém-formada, a oportunidade possibilitou que ela tivesse interface com todos os setores e processos de uma indústria farmacêutica, o que a ajudou a progredir rápido tecnicamente.

Depois, foi para a área de Validação, onde atuou por dois anos. Em seguida, para a Qualificação de fornecedores, onde viajava, nacional e internacionalmente, para auditar empresas e verificar se estavam aptas a fornecerem insumos para a unidade. Em 2018, passou a atuar no Serviço de Gestão de Mudanças e Riscos, sendo que, a partir desse ano, como responsável pelo setor.

É com orgulho que Maraísa evidencia o seu prazer em estar em Farmanguinhos.

“Far tem uma missão maravilhosa em relação à saúde pública! É um privilégio trabalhar numa instituição que tem um propósito maior.  E, profissionalmente, aqui eu cresci, sempre tive desafios. Foi uma grande oportunidade para atuar em uma indústria farmacêutica, onde pude conhecer pessoas, processos e lugares, além de estudar, fazer o mestrado… é uma constante evolução para mim”.

Maraísa durante defesa do Mestrado. Na época, seu filho tinha 4 meses.

Sobre trajetória, ela relembra três momentos marcantes, todos vividos no Instituto: o primeiro foi participar da equipe que acompanhou a auditoria da Organização Mundial da Saúde (OMS) no CTM, algo estimulante já que os auditores eram bem exigentes e todo o processo foi em inglês.

O segundo foi acompanhar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2017, durante inspeção sanitária na fábrica da matéria-prima rifampicina, na índia. Naquela oportunidade, ela representou Farmanguinhos, juntamente com Renata Palhares, sua gestora na época. Tal ocasião ocorreu porque alguns produtos, antes de serem importados, precisam sofrer tal averiguação da agência regulatória brasileira para obterem o Certificado de Boas Práticas e, assim, estarem aptos a comercialização.

O terceiro foi o Mestrado, já que ela ficou grávida no meio do curso e precisou escrever sua dissertação com um bebê recém-nascido. Precisou se adaptar, tendo que estudar enquanto ele dormia, muitas vezes de madrugada. Mas conseguiu… depois de tanto esforço e dedicação, apresentou seu trabalho, obteve aprovação e concluiu o curso em 2019.

Maraísa, na Índia, durante Inspeção Sanitária com a ANVISA em uma Farmoquímica.

Por falar em maternidade, Maraísa conta que a sua vida se transformou após o nascimento de Rafael, hoje com dois anos.

“Minha vida mudou completamente. Ser mãe é algo indescritível. É preciso viver para entender essa grandiosidade. Não dá para explicar. Você se torna outra pessoa. Abdica de muitas coisas em prol de um ser, mas vale muito a pena.  Todo o meu tempo livre é dedicado a ele, meus programas são pautados nele”, expõe a mãe coruja.

Como parte da sua rotina, toda manhã ela corre 30 minutos pelas ruas do Recreio, bairro onde mora. “Não gosto de nada indoor, prefiro fazer atividade ao ar livre. Por isso correr me faz bem… eu desperto, respiro ar puro, observo as árvores nas ruas e os pássaros”.

Como filosofia de vida, Maraísa destaca uma frase de Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Para ela, a mudança vem através de atitudes. Isto é, não adianta fazer planos e não fazer por onde concretizá-los.

“Sou uma pessoa pragmática. Se quero algo, corro atrás, faço o necessário para consegui-lo, ainda que seja preciso me sacrificar, abdicar de alguma coisa em função disso ”.

 

 

Farmanguinhos abre inscrições para residência multiprofissional

Aprovado pelo Ministério da Educação, o curso oferecido pela instituição abrangerá profissionais para atuação na área de insumos para o Sistema Único de Saúde (SUS)

O Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) divulgou o edital para Residência Multiprofissional em Tecnologias Aplicadas à Industria Farmacêutica (ResidTAIF). Serão oferecidas cinco vagas com bolsas de R$3.330,46, a serem concedidas pelo Ministério da Saúde a profissionais recém-formados em Farmácia, Biologia e Medicina Veterinária. Os interessados podem se inscrever de 3 a 6 de fevereiro na plataforma Sigals da Fiocruz.

Aprovada recentemente pelo Ministério da Educação (MEC), a residência multiprofissional de Farmanguinhos é a primeira do Brasil com um escopo voltado para formação intensiva de profissionais para atuarem na área de insumos para o Sistema Único de Saúde (SUS).

“As primeiras residências eram uniprofissionais, principalmente aquelas com especializações médicas. Mas devemos lembrar que o SUS é mais do que somente assistência primária, abrange também a área de insumos para a saúde, como é o caso dos laboratórios farmacêuticos oficiais. Nesse sentido, a proposta do nosso curso é formar profissionais para atuarem neste segmento”, ressalta a coordenadora de Educação da unidade, Mariana Conceição de Souza.

Ainda segundo a coordenadora, a criação dessa residência no Rio de Janeiro, especificamente em Farmanguinhos, é estratégica, uma vez que poderá atender aos laboratórios farmacêuticos oficiais (públicos) que, em sua maioria, localiza-se no sudeste do país. “Esse curso consolida ainda mais Farmanguinhos como hub educacional na área de indústria farmacêutica brasileira, um campo de estudo que é tão negligenciado, mas ao mesmo tempo extremamente importante para o nosso desenvolvimento econômico e social”, frisa.

Parceria com outros laboratórios – O plano de estudo teórico-prático acontecerá dentro dos setores de Gestão da Qualidade, Produção e Desenvolvimento Tecnológico da instituição. Além das dependências de Farmanguinhos, os residentes terão a oportunidade de usar estruturas de outros laboratórios públicos, que se uniram à unidade, como campo de prática, para ajudar na formação desses profissionais.

Dentre eles estão o Instituto Vital Brazil (IVB), localizado em Niterói, o Laboratório Farmacêutico da Marinha (LFM) e o Laboratório Químico Farmacêutico do Exército (LQFEx), ambos na cidade do Rio de Janeiro. “Essa iniciativa será ótima para os residentes e também para estreitar as relações entre esses laboratórios oficiais”, observa Mariana.

Essa iniciativa demonstra a preocupação de Farmanguinhos em preparar profissionais cada vez mais qualificados para atuarem na indústria farmacêutica – Eduardo Sousa, coordenador da residência multiprofissional.

Bolsas e seleção – Segundo o coordenador da Residência Multiprofissional em Tecnologias Aplicadas à Indústria Farmacêutica de Farmanguinhos, Eduardo Gomes Rodrigues de Sousa, o processo seletivo contará com provas objetivas e entrevistas. Os aprovados deverão fazer matrículas nos dias 27 e 28 de fevereiro para iniciarem as atividades no dia 2 de março.

 “Serão oferecidas cinco vagas no total. Destas, três são para farmacêuticos, sendo uma destinada às ações afirmativas da Fiocruz – 10% das vagas são destinadas a candidatos que se declararem pessoa com deficiência ou que se autodeclararem negros (pretos e pardos) ou indígenas”, afirma.

As bolsas de R$3.330,46 para pagamentos dos residentes serão concedidas pelo Ministério da Saúde, por meio de edital nº 2 de 16 de janeiro, já que se trata de um curso de dedicação exclusiva e, por esta razão, é obrigatória a concessão desses recursos para os profissionais. 

O coordenador explica que a Residência terá duração de dois anos, num total de 5760 horas. Essa carga horária será dividida entre atividades práticas e teóricas. “Esses profissionais estarão inseridos na unidade, tanto no campo prático (treinamento em serviço), como no teórico, de forma a possibilitar a problematização da realidade por meio de orientações específicas, seminários, estudos de caso, aulas dialogadas e expositivas além de outras abordagens de ensino, como o Campus Virtual Fiocruz”, ressalta Eduardo Sousa.

Conheça o Serviço de Bioprocessos

Nos últimos anos a biotecnologia vem se consolidando como um importante segmento da indústria farmacêutica. Neste sentido, Farmanguinhos vem investindo nesse ramo da Ciência, a fim de atender esse cenário. Para isso, a unidade conta com o Serviço de Bioprocessos (antigo laboratório de Bioprodutos), do Departamento de Biotecnologia, vinculado à Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico (CDT). Para se ter uma ideia da importância dessa área, de acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2012, medicamentos biológicos representavam apenas 5% na rede pública de saúde, no entanto, consumiam 43% do total de gastos do país.

“A maioria das grandes empresas farmacêuticas tem a biotecnologia internamente, muitas delas por meio da aquisição de outras pequenas empresas especializadas. Inovações como anticorpos monoclonais, terapia gênica ou celular estão na fronteira tecnológica da biotecnologia em saúde”, explica a servidora Graziela Pacheco.

Ao todo, dez profissionais atuam no Departamento de Biotecnologia nessas áreas, sob coordenação de Fabius Vieira Leineweber. “A substituição do nome por bioprocessos se deve por ser uma terminologia que tem o uso mais relacionado ao desenvolvimento de processos biotecnológicos de insumos farmacêuticos, enquanto bioprodutos remete mais a outros processos relativos a recursos biológicos renováveis” explica o servidor Fabius Leineweber.

O Serviço de Bioprocessos tem uma equipe multidisciplinar e altamente especializada, sendo quatro doutores e dois mestres. Eles atuam em diferentes operações, tais como controle microbiológico, biologia molecular, fermentação, recuperação e reenovelamento de proteínas, cristalização, reações enzimáticas, purificações cromatográficas de baixa e alta pressões e controle de processos. A gerência de projetos, além da prospecção, qualidade e suporte administrativo ficam a cargo do Departamento de Biotecnologia.

Equipe do Serviço de Bioprocessos

Alta performance – Recentemente, o laboratório passou por obra de adequação. Ao todo, possui aproximadamente 140 m2 de área operacional e conta com equipamentos de ponta, que possibilitam a automatização de processos e permitem o trabalho de modo reprodutível e aplicável em escala de produção. Desta forma, os profissionais trabalham no desenvolvimento, absorção, harmonização e escalonamento de tecnologias de produção de medicamentos que envolvam processos de origem microbiana. Além disso, a área presta serviços e colaborações técnicas internas ou externas e busca captar recursos por meio de projetos.

Outra grande novidade da Área é o início da automatização de alguns processos, permitida em virtude da recente instalação de equipamentos como coletor automático de amostras, analisador bioquímico, sensores de turbidez e sistema de pipetagem automática. Dentre as vantagens proporcionadas por esta automação estão a maior reprodutibilidade quando comparado a procedimentos manuais e a redução de parâmetros críticos de processo gerados, por exemplo, por perdas resultantes de contaminação ou erros operacionais.

“Atualmente, os equipamentos estão passando por uma etapa de padronização de metodologias, com base na tecnologia para produção de insulina, já bem estabelecida em escala de bancada em nosso laboratório. Atuando de maneira integrada com biorreatores, o coletor automático de amostras e o analisador bioquímico permitem que amostras sejam coletadas automaticamente do meio de cultivo e transferidas on line para a análise bioquímica. Com base no resultado obtido, comandos podem ser dados automaticamente ao biorreator para, por exemplo, aumentar o fluxo de nutrientes ao meio de cultivo, conforme as necessidades do microrganismo. A grande vantagem deste processo automatizado é a redução do risco de contaminação e a possibilidade de ajustes mais precisos do bioprocesso, com coletas de dados mais frequentes, resultados mais rápidos e consistentes, passíveis de otimização e escalonamento”, explica Graziela.

Responsável pelo Laboratório há dois anos, Graziela Pacheco é formada em Biologia, com mestrado em Tecnologia de Processos Bioquímicos e Doutorado em Bioquímica. A servidora entrou no Instituto em 2012. Antes, ela atuou em instituições de ensino superior, totalizando 11 anos de experiência profissional na área.

Segundo Graziela, a inserção da Biotecnologia em Farmanguinhos se mostra promissora, e a formação multidisciplinar é necessária porque este segmento permeia diversas áreas do conhecimento, da biologia à química. “Como exemplo, podem ser citados o desenvolvimento de IFAs (Insumos Farmacêuticos Ativos) para a produção de antibióticos, área na qual o Brasil é totalmente dependente de importação. De maneira similar, a utilização de estratégias de Biologia Sintética apresenta como potencial para produção de insumos de plantas, de síntese química ou de outros microrganismos, como alternativa a substâncias cuja obtenção em escala industrial apresenta maior grau de complexidade”, frisa.

Projetos – O Departamento de Biotecnologia vem atuando na transferência de tecnologia para produção de insulina humana recombinante, em parceria com a Indar, da Ucrânia. A absorção em escala de bancada já foi concluída. Agora, a equipe do Serviço de Bioprocessos encontra-se envolvida na etapa de aumento da escala para 30 litros de fermentação. A infraestrutura estabelecida após a obra de adequação poderá ser utilizada em outros projetos internos e de interesse institucional. Dois deles foram aprovados recentemente no Programa Inova Fiocruz.

Canabidiol e antibióticos – Um dos projetos foi aprovado no edital Ideias Inovadoras, e envolve a proposição de uma rota biossintética para a obtenção de canabidiol utilizando microorganimos geneticamente modificados. O segundo foi aprovado por meio do edital Geração de Conhecimento – Novos Talentos, e propõe uma estratégia nova para a obtenção de Penicilina G acilase, uma enzima importante para a geração de intermediários necessários à produção de insumos derivados da penicilina G, como a ampicilina e a amoxicilina, por exemplo, bem como as cefalosporinas.

“Em perspectiva, temos projetos que poderiam ser expressos em microorganismos por meio de técnicas de biologia sintética. Estamos preparando o laboratório para uma possível certificação em Boas Práticas de Laboratório (BPL), o que permitiria uma maior versatilidade para utilização dos lotes de desenvolvimento. Além dos projetos internos, o Serviço de Bioprocessos está capacitado para executar atividades de cooperação técnica, desenvolvimento de bioprocessos, transferência de tecnologia, treinamento e qualificação de força de trabalho”, conclui Graziela Pacheco.

Alexandre Costa é Gente de Far

Família. Esta palavra não só define o nosso entrevistado do Gente de Far, mas também é um dos motivos que o move. Em seu tempo livre, ele gosta de estar com os filhos, Bruna e Lucas, e com a esposa Luciana, com quem é casado há 22 anos. Sua fonte de inspiração? Nada menos do que seus pais, de quem ele tanto sente admiração. E se o assunto for legado? A resposta está em Eduardo, seu irmão caçula, que seguiu sua profissão (Químico). Conheça a história e a trajetória profissional de Alexandre Costa, do Serviço de Bioprocessos.

Nascido no Rio de Janeiro, o filho mais velho de Antônio e Ciléia teve uma infância normal, ao lado dos irmãos Leandro e Eduardo. Gostava de jogar bola na praça e de brincar de bola de gude, pique-esconde e de polícia e ladrão. Outra diversão era ir para o sítio do avô, no interior de Japeri, onde tomava banho de cachoeira, de rio e, ainda, subia em árvores.

Já na adolescência, Alexandre tinha outro hobby: consertar as coisas, principalmente eletrônicos. Ele tinha vários equipamentos em casa, como placas, alicates e ferro de solda. Costumava se distrair fazendo circuitos. Nesta época, ele pensava em seguir carreira nesta área. Entretanto, não foi o que aconteceu.

A paixão pela química, uma de suas matérias favoritas, ao lado de matemática e física, o levou a fazer o ensino médio técnico na Escola Técnica Federal de Química. Lá, fez o curso técnico de Biotecnologia, que estava sendo implementado no Brasil na época e era muito promissor, já que estava sendo considerada a profissão do futuro. E foi nesta área que Alexandre tem desenvolvido e consolidado a sua carreira. Além de Técnico em Biotecnologia, ele é Mestre em Polímeros pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Químico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Sobre sua experiência profissional, ele começou sua trajetória em um laboratório de genealogia, que realizava análise de DNA, onde ficou cerca de um ano. Em seguida, trabalhou na Merck, atuando por 15 anos, como pesquisador e desenvolvedor de produtos naturais.

Foi nessa indústria que viveu um dos momentos mais marcantes da sua profissão: um princípio ativo antiinflamatório que foi incorporado a um creme tem seu nome na patente do método de extração. Trata-se do tilirosideo. Na ocasião, ele participou de todo o processo de extração e purificação do princípio ativo da planta, desenvolveu a escala de laboratório e a piloto. Posteriormente, foi para a fábrica da empresa em São Luís, no Maranhão, para treinar os colaboradores para rodar o produto em escala industrial e produzir três lotes para avaliação, além de, em paralelo, estar envolvido com todos os trâmites que envolvia tal método (custos, matérias-primas, qualidade, logística etc).

“Foi um desafio muito grande, não somente por todo trabalho envolvido, mas também por ser a primeira vez que eu fiquei exposto a esse tipo de situação. Eu estive envolvido em todo o processo e fiquei responsável pela maior parte dele, inclusive em relação à produção. Eu agia como um ponto de interseção entre as áreas. No fim, de tudo certo Os lotes foram aprovados”, conta.

Depois da Merck, Alexandre trabalhou por dois anos e meio numa indústria química de polímeros. Logo após, em 2012, chegou em Farmanguinhos para compor a equipe do Serviço de Bioprocessos, ligado a Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico (CDT), lotado no campus Manguinhos.

“Eu vim com a proposta inicial de atuar no Projeto Insulina, uma Parceria de Desenvolvimento Produtivo com a empresa Indar para absorção de tecnologia. Com isso, eu e meus colegas de equipe fomos algumas vezes para a Ucrânia para recebermos treinamento dos processos. Foi uma experiência enriquecedora. Em Far, minha rotina é dinâmica e ligada aos projetos do laboratório. Nossa equipe é multidisciplinar e altamente qualificada, o que permite uma troca de experiência engrandecedora. Hoje, além do projeto insulina, que já se encontra em fase de finalização, eu também atuo em dois novos projetos do setor, onde pesquiso métodos de purificação e de análises dessas biomoléculas”, enfatiza.

Alexandre com a equipe do Serviço de Bioprocessos

Além da química, o que mais faz os olhos de Alexandre brilharem? Acertou quem disse sua família! Como dito na introdução, são essas pessoas que fazem a vida dele ter sentido… “Eu vivo o meu sonho, que era ter uma família bem constituída. Não há prazer maior pra mim do que estar com a minha família, de curtir meus filhos, de viajar com eles. Todas as noites nos reunimos para agradecer a Deus e também para pedir graças para o dia seguinte”, revela.  

E a gratidão não para por aí, Alexandre também se orgulha de seus pais e comenta o quanto eles o inspiraram: “Tenho muita admiração pelo meu pai, por toda sua determinação e luta. Já a minha mãe, muito me influenciou a ser quem eu sou hoje, no que diz respeito aos estudos e em meu caráter.

Por fim, após conhecer a história de Alexandre, não há como não lembrar do autor britânico Sir John Bowring, que disse: “Uma família feliz nada mais é que o paraíso antecipado”. Sem dúvidas, a maior riqueza do nosso entrevistado.

Maria José Alves é Gente de Far

“Querer é poder”. Quem nunca ouviu essa frase? Pode parecer até clichê, mas essa citação define muito a nossa entrevistada do Gente de Far, que começou sua carreira na unidade, em 2005, como auxiliar de serviços gerais, e, sempre que limpava algum laboratório, se imaginava trabalhando naquele local. Com muito esforço, se formou em Biologia e há 9 anos atua na Seção de Controle Microbiológico, dentro do laboratório, analisando medicamentos, matérias-primas, materiais de embalagem, água e o ambiente fabril. Conheça a história e a trajetória profissional de Maria José Alves.

Uma mistura da mãe e do pai, tanto no nome quanto na personalidade. Zezinha, Zezi, Zequinha, Zé, Zezé… cheia de apelidos, ela revela que, quando criança, não gostava do nome. “Eu não gostava do meu nome e sempre dizia que, quando eu crescesse, que tivesse 18 ou 19 anos, eu iria mudá-lo. Teve uma época que eu queria me chamar Gabriela, depois Marisa. Inclusive, na oitava série, eu assinava as provas como Marisa e os professores ficavam loucos, pois não havia ninguém com esse nome na turma. Minha mãe foi chamada na escola e eu apanhei por isso”.

Criada no bairro de Vargem Grande, onde mora até hoje, a filha da dona Nair Maria e do seu José teve uma infância simples. Ela e seus sete irmãos, sendo uma antes da caçula, cresceram em um sítio, onde seu pai mantinha uma plantação de banana para garantir o sustento da família. Com carinho, ela relembra dessa época:

“Minha mãe era do lar e meu pai, feirante. Ele plantava banana e vendia na feira da Rocinha. Éramos pobres, mas felizes. Eu era muito levada e apanhava todos os dias da minha mãe. Já fiz muita arte, como jogar pedra no telhado do vizinho e tacar fogo no galinheiro. Naquela época, não tínhamos muitos recursos e brinquedos como hoje, mas a gente se divertia muito. Eu gostava de brincar de cozinhar usando um fogão improvisado de pedra e panelas feitas com latas de sardinha e de leite. Também brincava de pique lateiro, amarelinha… Eu tive uma infância muito boa”, conta.

E se tinha algo que Zezé detestava, quando nova, era estudar. Sua mãe sempre falava da importância dos estudos, mesmo sem muita instrução, mas ela nunca deu atenção. Inclusive, ela ficou 22 anos longe da escola por opção (algo que se arrepende).  Mas sua percepção mudou quando entrou em Far, onde vislumbrou a oportunidade de retomar seus estudos e crescer na instituição, tornando-se uma referência para sua família, sendo a primeira com ensino superior.

“Imagina a honra da minha mãe se ela estivesse viva. Logo eu, a rebelde, que fugiu da escola, ser a primeira a se formar. Na verdade, a única entre os meus irmãos. Ela ficaria muito orgulhosa”, ressalta.

Mas antes de falarmos sobre essa história de superação, precisamos retomar a sua trajetória no Instituto. Emocionada, Zezé narra como chegou aqui:

“Eu entrei aqui, em 2005, para trabalhar como auxiliar de Serviços Gerais. Eu fiquei impressionada com o que vi (um lugar grande e cheio de computadores), algo que eu não estava acostumada. Eu limpava as salas, mas o que mais chamava a minha atenção eram os laboratórios. Eu me imaginava trabalhando em um deles. Com o tempo, o interesse aumentava e foi aí que decidi investir nos estudos. Eu havia terminado o segundo grau, em 2002, e, com o dinheiro que sempre sobrava do meu salário, e com o incentivo dos meus colegas de trabalho, comecei a fazer faculdade de Biologia na Souza Marques. O mais engraçado é que, quando eu era pequena, eu era fascinada por essa instituição de ensino, eu amava o uniforme e sonhava em estudar lá, mas meus pais não tinham condições. Depois de tanto tempo, eu consegui”.

Fotos do período em que trabalhava como auxiliar de Serviços Gerais

Em 2007, com o término do contrato da empresa de limpeza, Zezé saiu de Far. “Eu não queria sair daqui de jeito nenhum, mas a empresa que entrou estava oferecendo um salário muito baixo. Eu precisava manter meus estudos”, conta.

No ano de 2009, ela recebe um convite para voltar ao CTM. Desta vez, para trabalhar no restaurante, como auxiliar administrativo. “Eu nem acreditei que eu estava voltando a trabalhar em Farmanguinhos. Quando cheguei aqui, quase que eu beijei o chão! Eu agradeci tanto a Nossa Senhora da Penna (igreja que fica no alto de uma pedra e que conseguimos ver aqui do CTM). Chorei e tudo, pois tenho paixão e orgulho em trabalhar nessa instituição, de contribuir, de alguma forma, com a saúde da população”, revela.

Mas a atuação no restaurante durou apenas um ano. Em 2010, por intermédio da sua chefe imediata do restaurante, Ivana, conseguiu transferência para a Microbiologia, onde passou a atuar como auxiliar de laboratório e a colocar em prática os ensinamentos que estava obtendo na faculdade. E lá se vão 9 anos se dedicando as análises de cada etapa do processo produtivo.

No Laboratório de Microbiologia, ao lado das amigas Patrícia e Carla.

Engana-se quem pensa que Zezé sempre sonhou em ser bióloga. “Eu fiz auxiliar de Primeiros Socorros e auxiliar em Enfermagem, na Cruz Vermelha. Gostei tanto de Enfermagem, que resolvi fazer o Técnico no Curso Tavares Lira.  Queria fazer faculdade, mas era muito cara. Por indicação, optei pela Biologia, já que também me permitiria trabalhar na área de saúde e atuar em laboratório. Comecei a pesquisar e me interessei. Além disso, também contei com o incentivo de amigos de Far, como a Neuza Orlando, Jorge Alexandre (que não trabalha mais aqui), Patricia Costa e Carla Mororó. Essas últimas, me ajudaram muito. Tudo o que eu sei, eu aprendi com elas. Ao final, eu acabei me identificando com a Biologia. Entretanto, em Far, eu consigo atuar nas minhas demais áreas de conhecimento, uma vez que faço parte da Brigada de Incêndio da unidade. Uma oportunidade para ajudar e ainda fazer o que gosto”, expõe. 

Orgulhosa, Zezé mostra os resultados obtidos após uma análise de água.

Sobre a sua rotina, ela explica como funciona a atuação da Microbiologia: “Imagina que você precisa fazer um bolo. Você tem que avaliar a forma, os ingredientes… assim é a Microbiologia, para produzir um medicamento, é necessário analisar tudo que irá compô-lo, não só as matérias-primas, como também os maquinários e o local da fabricação”.

Maria José fazendo análises dentro da Sala de Testes

Quando questionada sobre o seu maior desafio profissional, ela não titubeia e responde: “A primeira vez que eu trabalhei sozinha na sala de teste, onde os produtos são avaliados, foi muito desafiador. Na ocasião, analisei o xarope Sulfato Ferroso. Fiquei receosa no início, pois são muitas informações e detalhes que precisam de atenção, mas no fundo eu sabia que eu podia, que eu estava preparada. Por isso que eu digo que todo mundo é capaz de aprender alguma coisa, mesmo com toda dificuldade. Se você quer, você pode”.

E quem disse que ela está satisfeita? Em relação ao futuro, Zezé anuncia seus planos: “Quero retomar a pós-graduação em Microbiologia e fazer faculdade de Química”.

 

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