Ano: 2019 (Página 23 de 26)

‘Medicamento não deveria ser um luxo, é um direito’, diz diretora de campanha da ONG Médicos Sem Fronteiras

Els Torreele denuncia indústria farmacêutica por restringir acesso a remédios para obter lucro

O Globo / Ana Paula Blower

RIO- Medicamentos não deveriam ter preços exorbitantes, mas serem acessíveis aos pacientes e sistemas de saúde. Este é um dos preceitos da Campanha de Acesso a Medicamentos, um departamento de advocacy da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF). Quando começaram, há 20 anos, o foco era nas doenças negligenciadas, como a de Chagas, que não recebiam atenção da indústria farmacêutica para terem melhores tratamentos. Hoje, o problema parece maior: pacientes com doenças crônicas, como diabetes, também sofrem com altos preços de drogas básicas em países ricos.

Ao GLOBO, a diretora da Campanha, Els Torreele, fala sobre a iniciativa e a importância de o Brasil seguir com ações de pesquisa e desenvolvimento de remédios.

A campanha completa 20 anos. Por que ela começou?

Começamos para assegurar que os pacientes dos projetos de MSF, e além deles, tivessem acesso aos medicamentos, diagnósticos e vacinas dos quais precisam. Naquele momento, surgiam novos tratamentos para HIV/ Aids em países ricos mas muito caros para os em desenvolvimento. Tentávamos, então, encontrar formas de dizer que medicamentos são um direito, não deveriam ser um luxo ou commoditie. Fomos atrás de formas de baixar os preços e percebemos os entraves nisso. Os valores não têm a ver com custo de produção ou pesquisa, mas com quanto as farmacêuticas podem lucrar. Há 20 anos, doenças negligenciadas, como de Chagas e leishmaniose, sequer tinham tratamento. As empresas não as achavam lucrativas o bastante. Sempre nos preocupamos em garantir que essas doenças tivessem a atenção necessária: se não fosse pelas grandes companhias, que encontrássemos outras ferramentas.

O foco da campanha mudou?

Tivemos avanços e os exemplos mudaram. Temos um tratamento para HIV/Aids acessível, 22 milhões de pessoas que hoje sobrevivem porque têm acesso a ele. Mas vemos que cada novo medicamento que entra no mercado passa pelo mesmo problema de preço. Antes a dificuldade de acesso a medicamentos era um problema de pessoas pobres vivendo em países em desenvolvimento, e, hoje, tornou-se uma questão global. Países como a Bélgica e outros da Europa Ocidental, por exemplo, estão tendo problemas com novas gerações de remédios para hepatite C, câncer, que estão inacessíveis para os sistemas públicos. A nossa luta pelo acesso se tornou global.

O problema se tornou maior?

Sim. A questão das patentes se tornou global e os tratamentos ficam cada vez mais caros. Quando começamos, o Brasil foi um caso piloto onde o governo decidiu que era responsabilidade pública oferecer tratamento gratuito para pessoas vivendo com HIV/Aids, além de produzir genéricos para baixar preços. Foi assim também em outros países, como Índia. Essa alternativa não é mais possível. Em 1995, com a Organização Mundial do Comércio e a assinatura do acordo tríplice (em que todos os países que assinassem teriam que reconhecer patente), decidiu-se que teria que esperar a patente expirar para produzir genéricos. Além disso, tratamentos para HIV/Aids estão mais caros. Os primeiros custavam US$ 10 mil, 15 mil por pessoa, por ano. Hoje, os novos custam US$ 100 mil, US$ 500 mil. Esse é o tipo de ganância da indústria farmacêutica, com preços exorbitantes. Hoje, até os países ricos terão seus sistemas públicos de saúde arruinados se continuarmos assim. Precisamos de uma solução global, não só uma “de caridade” para os países pobres.

Qual a solução, envolvendo a indústria e os governos?

Essa é uma questão de poder. Temos uma sociedade capitalista global onde as indústrias farmacêuticas têm muito poder em assegurar que as regras do jogo se adequem ao negócio e consigam o máximo de lucro. O papel dos governos é ditar as regras do jogo. Eles podem dizer: “Chega, já é o bastante. Vocês não podem extrair o máximo que podem de pacientes que estão morrendo”. Os governos podem determinar regras sobre monopólio, preços, transparência, sobre como as indústrias gastam em pesquisa, as razões pelas quais cobram altos preços. E isso não está acontecendo.

Quem sofre os efeitos disso?

O tratamento para hepatite C é um exemplo, foi um desafio para países como Estados Unidos, Japão, e há uma batalha em curso em países da América Latina com relação à isso, por ser muito caro. Em alguns países da África, ele nem é disponível. Outro exemplo é o que ocorre nos EUA com diabetes. Há casos constantes na imprensa de jovens que não conseguem custear insulina, uma droga básica. As companhias põe preços cada vez mais altos, que fazem com que jovens que estavam no plano de saúde de seus pais não sejam mais autorizados a ficar e, por isso, não conseguem pagar o medicamento. As empresas sabem que as pessoas estão morrendo e farão de tudo para comprar esses remédios.

Como está o Brasil?

Há no país, nos últimos 20 anos, um setor público de saúde forte com a perspectiva de que o acesso deve ser para todos. O governo investiu na produção de medicamentos, criando iniciativas como a Farmanguinhos, e nas de pesquisa, como a Fiocruz, para garantir a produção local. Mas não está claro qual será o direcionamento dessas políticas. Fala-se em mais poder ao setor privado na saúde, o que não dá certo. Se deixá-los no comando, vão cobrar preços cada vez mais altos. O Brasil tem ótimos exemplos, como a vacina contra dengue sendo desenvolvida no Butantã e a produção do genérico sofosbuvir contra hepatite C, na Fiocruz. Seria fantástico se o país se mantivesse forte nesta produção local e promovesse o exemplo ao resto do mundo.

Aula Inaugural adiada

Evento, que aconteceria hoje (14/03), terá nova data divulgada

Lucas Mattos é Gente de Far

Lucas atua há 9 anos em Far

Após terminar o curso técnico na Faetec e um estágio no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), Lucas Mattos começa em Farmanguinhos sua trajetória na profissão escolhida. Foi como Auxiliar de Manutenção que o jovem rapaz, nos idos de 2010, começou a entender na prática a história do amadurecimento pessoal e profissional. Agora, “homem feito”, Lucas compartilha conosco suas experiências em Far e na vida.

A falta de vivência proporcionou ao rapaz, no auge dos seus 18 anos, uma imersão na sua primeira investida profissional na Manutenção Fabril. Primeiro na Usinagem e depois na Serralheria, passo a passo foi aprendendo com os mais experientes, ganhando prumo e confiança. A evolução era notória e, em determinado momento, foi chamado para trabalhar dentro da fábrica mexendo com equipamentos de produção, fabricação e embalagem de medicamentos.

Além disso, aproveitando o processo de crescimento, iniciou curso superior em Engenharia Mecânica, fez cursos de aprimoramento promovidos pela Instituição, agregando mais conhecimento ao seu trabalho.

“Eu sou muito grato a todos que me apoiaram no meu início. Farmanguinhos foi o lugar em que eu aprendi o que é trabalhar. Aqui foi meu primeiro emprego onde, totalmente “cru”, tive minhas primeiras oportunidades de desenvolvimento profissional. Concluí minha graduação em 2017 e agora, mais maduro, continuo aprendendo com meus colegas de equipe. Aqui, trabalhamos com equipamentos muito avançados. A tecnologia é muito aplicada. Consigo ver sistemas e funções da mecânica que lá fora eu veria um ou outro, em determinados setores. Mas, ver tudo isso junto, só aqui em Far. Para formação profissional é muito interessante”.

Vanessa Lordello é Gente de Far

Vanessa Lordello explica que um dos principais desafios na Divisão de Assistência Farmacêutica é garantir o abastecimento do SUS (Foto: Viviane Oliveira)

Com três pós-graduações na bagagem, ela está partindo em busca do Mestrado. A viagem é longa, mas não a assusta. Se for necessário, vai buscá-lo do outro lado do Atlântico. Afinal, acreditar é um verbo que conjuga desde cedo, e, dos sonhos, ela cria metas e as transforma em realidade.

E foi assim, acreditando até o fim, que Vanessa Lordello iniciou sua história em Farmanguinhos: ingressou na unidade em 2012, numa das últimas convocações do concurso público de 2010, hoje, atua num setor extremamente estratégico para a sustentabilidade institucional. Praticidade é um traço de sua personalidade. Estudou Farmácia por se identificar com as disciplinas e por haver um mercado interessante a sua espera.

“Tinha pelo menos quatro ou cinco frentes para eu seguir nessa área, como, por exemplo, drogaria, manipulação, indústria, alimentos e análise clínica. Então, optei por estudar mais um ano e me formar em Farmácia Industrial”.

Faz amigos por onde passa. Foi assim no Planejamento Logístico (Arquivo pessoal)

Além da graduação, a servidora possui três especializações: em Tecnologia Industrial Farmacêutica; em Gestão de Organizações de C&T em Saúde; e em Gestão da Assistência Farmacêutica.

Quem a vê transitando não imagina o tamanho da experiência que Vanessa acumula no campo da assistência farmacêutica. Ela atuou tanto na indústria, quanto na ponta do processo, isto é, no contato direto com o público.

“Trabalhei bastante tempo em drogarias. Atuei também em uma indústria de terceirização de embalagens (farmacêuticas) e, por último, trabalhei em uma empresa de pequeno porte de produtos fitoterápicos”, explica.

Com todo esse conhecimento, a servidora iniciou sua trajetória institucional no antigo Núcleo de Assistência Farmacêutica (NAF). Passou um período no Planejamento Logístico, depois retornou ao setor de origem. Atualmente, Vanessa Lordello é responsável pela Divisão de Assistência Farmacêutica, área vinculada ao recém-criado Centro de Empreendedorismo e Assistência Farmacêutica (CEAF).

Abastecimento do SUS – “Os principais desafios neste setor são garantir o abastecimento do SUS e promover novas parcerias nacionais e internacionais, apesar de toda essa instabilidade política e econômica que o país atravessa”, frisa.

A servidora explica que o objetivo do CEAF é contribuir para a sustentabilidade de Farmanguinhos por meio de novas parcerias e projetos. Para alcançar os resultados esperados, a área realiza o acompanhamento da estratégia comercial, acordos e condições de venda.

“Monitoramos também o serviço de aquisição de medicamentos a partir de demandas envolvendo PDP (Parcerias de Desenvolvimento Produtivo) e fazemos acompanhamento dos contratos de distribuição para o Ministério da Saúde. Fazemos ainda prospecção de necessidades dos estados, municípios e organismos sem fins lucrativos, de modo a contribuir para a promoção da saúde pública por meio da distribuição de medicamentos”, destaca.

De volta às origens: Vanessa Lordello com a atual equipe do Centro de Empreendedorismo e Assistência Farmacêutica (Foto: Alexandre Matos)

Essência profissional – Retornar à área de origem é reencontrar a essência profissional.

“Eu gostava de trabalhar em outro setor, mas este aqui tem mais a ver com a minha formação. Além disso, é interessante lidar com o Ministério e ver a ponta da cadeia. Para dar a resposta final (entrega dos medicamentos), que é o que eu acompanho, preciso me relacionar com quase todos os setores de Farmanguinhos. Precisamos sempre informar ao Ministério qual a previsão de entrega dos medicamentos. Portanto, de certa maneira, acompanhamos a produção quase que de ponta a ponta”.

Centro de Empreendedorismo e Assistência Farmacêutica (CEAF)

Farmanguinhos vem usando sua capacidade de resiliência para superar os desafios, continuar sendo uma referência na produção pública de medicamentos e seguir contribuindo para a saúde da população. Num cenário cada vez mais globalizado, uma das estratégias vem sendo articulada pelo Centro de Empreendedorismo e Assistência Farmacêutica (CEAF): a busca por novas parcerias a fim de promover a expansão do acesso a medicamentos nos âmbitos nacional e internacional.

O CEAF é integrado por oito profissionais. A partir da esquerda: Tereza Santos, Paulo Casar Oliveira, Eliane Bispo, Renato França, Lívia Lins, Marcos Targino, Vanessa Lordello e Fernando Dias da Silva (Foto: Tatiane Sandes)

Concebido no ano passado, o CEAF absorveu as atividades do antigo Núcleo de Assistência Farmacêutica (NAF) e, a elas, agregou ainda uma nova frente de trabalho com vistas a parcerias e abertura de negócios externos. Desta forma, está organizado em Divisão de Assistência Farmacêutica e Divisão de Mercado e Relações Internacionais. Trata-se de uma equipe multidisciplinar, com oito profissionais no total, incluindo a coordenadora Tereza Santos. Eles são responsáveis por todos os programas de Assistência Farmacêutica de Farmanguinhos: Endemias Focais; Tuberculose; Oncológico; Imunossupressão; Hiperfosfatemia; IST/Aids e Hepatite virais, além do Programa de alimentação e nutrição e de Tratamento de Influenza.

O compromisso de integrar crescimento sustentável como parte indispensável de nosso modelo de negócios vai gerar vendas maiores – Tereza Santos

A Divisão de Assistência Farmacêutica atua no acompanhamento da estratégia comercial, acordos e condições de venda; serviço de compras dos medicamentos para entrega de toda a demanda (PDP) solicitada pelo Ministério da Saúde; no acompanhamento da validade dos produtos em estoque. Participam do processo pós-venda, a partir da interação com o SAC para monitoramento de eventuais desvios e reposição de medicamentos. Atuam ainda na prospecção de necessidades dos estados e municípios, bem como de organismos sem fins lucrativos.

Já os colaboradores lotados na Divisão de Empreendedorismo e Relações Internacionais trabalham na prospecção e monitoramento de novos mercados, produtos e serviços, com vistas à venda de medicamentos, parcerias e acordos. Com uma visão voltada para exportação de medicamentos, eles acompanham licitações da OMS, OPAS e Unicef e buscam financiamentos por meio de projetos e programas específicos.

“O compromisso de integrar crescimento sustentável como parte indispensável de nosso modelo de negócios vai gerar vendas maiores enquanto reduz custos e riscos”, frisa a coordenadora do CEAF, Tereza Santos

Primeiros resultados – Essa observação é extremamente importante, principalmente porque a crise econômica e a severa restrição orçamentária na saúde exigem grandes esforços da instituição para captar parcerias e prospectar novos negócios. Sob esse aspecto, o novo setor já tem apresentado alguns resultados.

Em uma iniciativa do CEAF, o diretor Jorge Mendonça e a coordenadora da área, Tereza Santos, participaram de reuniões no Ministério da Saúde e órgãos de saúde pública do Peru. Os encontros fizeram parte do plano de prospecção de novas oportunidades de negócios (Foto: arquivo)

No fim do ano passado, por exemplo, o diretor Jorge Mendonça e a coordenadora da área, Tereza Santos, participaram de reuniões no Ministério da Saúde e órgãos de saúde pública do Peru. O objetivo foi prospectar oportunidades de negócios para distribuição de medicamentos para aquele país, bem como formalizar parcerias para troca de experiências em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e produção.

“O CEAF visa a ampliação do acesso aos medicamentos, no âmbito nacional e internacional, promovendo novas parcerias e negócios de sucesso, almejando a sustentabilidade de Farmanguinhos”, ressalta a servidora.

Desafios – O CEAF é uma área nova que absorveu atividades existentes e vem implantando outras inéditas, até então, na unidade. Portanto, muitos são os desafios pela frente. Um deles, segundo a coordenadora, é desenvolver internamente um compromisso com a sustentabilidade de Farmanguinhos, ou seja, responder com compromisso às novas demandas por medicamentos tanto no Brasil como em outros países. “Nós temos atuado estrategicamente em negociações de parcerias internacionais e, também, em acordos de cooperações nacionais”, ressalta.

Assim como diz a teoria evolucionista, a este cenário desafiador sobreviverão aqueles que melhor se adaptarem. Numa leitura atualizada, diante das novidades decorrentes do avanço tecnológico e da mudança do perfil epidemiológico da sociedade, Farmanguinhos vem se esforçando para evoluir e buscar novas oportunidades de negócios. É com essa premissa que o CEAF vem trabalhando e conta com todo o apoio institucional para obter êxito em sua missão.

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