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HIV/Aids é tema de Centro de Estudos

Em encontro virtual, no Dia Mundial de Luta Contra a Aids, a pesquisadora Monica Bastos apresentou os novos desenvolvimentos para a erradicação da doença

Em mais uma ação pelo Dia Mundial de Luta Contra a Aids, celebrado no dia 1º de dezembro, o Centro de Estudos de Farmanguinhos recebeu a pesquisadora Mônica Bastos, do Laboratório de Síntese de Fármacos (LASFAR) da unidade, para debater o tema “HIV/AIDS: Uma visão dos novos desenvolvimentos para a erradicação da doença”. O encontro virtual, mediado pela coordenadora do Departamento de Educação, Mariana Souza, e pelo pesquisador Frederico Castelo Branco, também do LASFAR, foi transmitido pelo canal da unidade no YouTube.

Antes de iniciar sua exposição, Mônica Bastos explicou a diferença entre o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) e a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), salientando que ter o vírus não é a mesma coisa que ter a doença.

“A pessoa pode estar vivendo com HIV e não estar com Aids. HIV é o vírus causador da enfermidade. Então, há indivíduos que estão contaminados pelo HIV, mas não desenvolvem a doença. Essa é uma das grandes problemáticas, porque essas pessoas não desenvolvem os sintomas, a doença propriamente dita, e elas estão contaminadas, infectadas, e transmitindo para outras. A Aids só surge quando o indivíduo desenvolve infecções oportunistas, que podem ser tuberculose, pneumonia, hepatites virais e sífilis, por exemplo”, explanou.

A palestrante fez um panorama sobre a doença no mundo, apresentando números de pessoas infectadas, a estimativa de novas infecções no ano, a região mais afetada pela doença, o índice de mortalidade, dentre outros dados.

Durante a exposição, Mônica ainda abordou a iniciativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) para controlar a doença. Trata-se da “Meta 90-90-90”, uma estratégia que consistia em ter 90% da população mundial testada e diagnosticada, sendo 90% dessas pessoas em tratamento e 90% em tratamento em supressão viral. O único país que atingiu a meta foi a Inglaterra. O Brasil obteve 89% de pessoas diagnosticadas, 77% em tratamento e 94% em supressão viral, de acordo com dados do Ministério da Saúde em 2020.

Devido ao insucesso, a OMS estabeleceu uma nova meta para 2030: 95-95-95 em tratamento e reduzir o número de novas infecções em adultos, passando de 500 mil para 200 mil casos.

Como atingir a meta – Segundo a pesquisadora, um dos maiores entraves para o alcance está no tratamento. “No Brasil temos uma distribuição gratuita desses medicamentos pelo SUS, mas a realidade é outra no restante do mundo”, destacou.

Para combater a replicação e atingir a supressão viral, devido à complexidade do ciclo do HIV,  é necessária uma combinação de fármacos que atuem em diferentes pontos. É isso que a terapia de antirretrovirais (ATR) atual oferece. Nesse sentido, Mônica apresentou os tratamentos vigentes.

“Hoje, o esquema preferencial é a associação entre as substâncias dolutegravir, lamivudina e tenofovir. Entretanto, nesta semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a combinação do dolutegravir com a lamivudina como novo esquema preferencial, tirando o tenofovir, que tem apresentado uma série de toxicidades para os rins. A previsão é que entre em vigor a partir do próximo ano. Também é administrada, especificamente para neonatos (crianças até 5 quilos), a combinação de zidovudina, lamivudina e raltegravir. A partir dessa idade, a OMS recomenda dolutegravir, lamivudina e abacavir”, informou a pesquisadora

Novos desenvolvimentos – Há vários fármacos em desenvolvimento e em fases distintas. A pesquisadora evidenciou as novidades que têm sido descritas, como os inibidores da gp120, do CD4, de Capsídeo e da proteína Rev, que faz o transporte do RNA mensageiro para o núcleo da célula. 

“É muito importante que sejam desenvolvidos novos inibidores, com meios distintos, para serem adicionados na terapia por conta da possibilidade de ocasionar mecanismos de resistências advindos do uso da substância por um longo período”, alegou.

Mônica Bastos ainda reforçou que, apesar da pandemia, os estudos clínicos relacionados aos antirretrovirais não pararam, inclusive, com aprovações de trabalhos de substâncias que estavam em estágio avançado, reiterando a importância do tema. “No ano passado tivemos a aprovação do primeiro inibidor da gp120, o fostemsavir (FTR), que é um pró-fármaco, cujo ativo é o temsavir”, ressaltou.

De acordo com a pesquisadora, em 2018, foi aprovado o ibalizumabe, um inibidor de receptor de CD4 (anticorpos monoclonais). Nesta mesma linha, há outros estudos em andamento com previsão de serem aprovados em uma média de três anos.

Profilaxia Pré-exposição (PrEP) – Segundo a especialista, a maioria das ações desenvolvidas anualmente está relacionada à PrEP, indicada ao indivíduo soronegativo exposto à contaminação do HIV. Para essa profilaxia está disponível a combinação de entricitabina + tenofovir produzida por Farmanguinhos, que conta com outros oito antirretrovirais para enfrentamento de HIV/Aids. Clique aqui e confira todas as iniciativas do Instituto nesse segmento.

“Temos resultados positivos, como a redução da taxa de novas contaminações e a prevenção do HIV em grupos de risco. Entretanto, ainda há muitas questões a serem respondidas. No Brasil, por exemplo, nós distribuímos gratuitamente a PrEP e isso tem um custo. Imagina o investimento do Ministério da Saúde ao oferecer medicamento para um paciente que não está doente. Também há questões da resistência aos inibidores, apesar de ser muito discutido que isso não impactará no paciente que precise de tratamento caso seja contaminado futuramente, e do diagnóstico nas pessoas que fazem uso da PrEP e são contaminadas pelo vírus. São questões que ainda estão sendo respondidas, mesmo com o uso da PrEP em andamento”, salientou.

Novos sistemas de entregas de medicamentos – A especialista também apresentou alguns exemplos de tecnologia de entrega de fármacos em fases de desenvolvimento, pré-clínicos e clínicos, para o tratamento e prevenção de infecção pelo HIV, como implantes, injetáveis de ação prolongada, adesivos de microagulhas e anéis vaginais e anais, apontando as vantagens e as desvantagens de cada um.  

Solução  – A pesquisadora assinalou que o HIV possui inúmeros aspectos que o diferem de outros vírus que dificultam a execução de estratégias para a cura ou desenvolvimento de vacinas.

“O HIV tem uma taxa de mutação dez vezes maior do que o da Influenza e vinte vezes mais do que o SARS-coV-2, por exemplo. Além disso, no HIV, o alvo do vírus são os principais controladores do nosso sistema imune e ele se incorpora ao DNA, com um longo período de latência. Todas essas condições são barreiras que dificultam a cura e a encontrar uma vacina que seja efetivamente eficaz. Já tivemos muitas vacinas testadas, mas que não atingiram a eficácia mínima para serem disponibilizadas para a população. Então, apesar dos esforços, o HIV continua sendo um grave problema de saúde pública. A vacina segue sendo um desafio, novas formulações, opções de PrEP e sistema de liberação de fármacos estão sendo autorizados e o desenvolvimento de novos antirretrovirais ainda é a única alternativa para conter o aumento do número dos casos”, concluiu.

Ao final da apresentação, a palestrante interagiu com o público e respondeu as perguntas encaminhadas pelos participantes no chat.

Clique aqui e assista ao encontro na íntegra.

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Farmanguinhos tem novo Sistema de Geração e Distribuição de Água Purificada

Totalmente automatizado, o sistema aumentou a capacidade de armazenamento e de pontos de distribuição, suprindo todas as demandas da fábrica

Novo Sistema de Geração e Distribuição de Água Purificada aumentou significativamente a capacidade de armazenamento e de pontos de distribuição de água, suprindo todas as demandas da fábrica (Foto: Alexandre Matos)

O Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) concluiu a implementação de seu novo Sistema de Geração e Distribuição de Água Purificada. Mais moderno e totalmente automatizado, o sistema aumentou significativamente a capacidade de armazenamento e de pontos de distribuição de água, suprindo todas as demandas da fábrica. Mais do que a utilização nos processos de limpeza dos equipamentos, a água purificada é uma matéria-prima essencial na produção de medicamentos.

Na cerimônia de descerramento da placa de inauguração, realizada nesta quarta (1º/12), o diretor Jorge Mendonça ressaltou a importância que o novo sistema representa para a unidade. “A estratégia de investir em infraestrutura, como um novo sistema de geração e distribuição de água purificada, visa não só atender a legislação sanitária, como também prover a sustentabilidade de Farmanguinhos a médio e longo prazos, garantindo, assim, nossas atividades fabris”, destacou.

Elda Falqueto, Jorge Mendonça, Vânia Buchmuller, Silvia Santos e André Cordeiro. Em reconhecimento pelos esforços empregados no processo de implementação do novo sistema, o diretor agradeceu todo o empenho das áreas envolvidas e frisou que é motivo de orgulho (Foto: Viviane Oliveira)

Além do diretor Jorge Mendonça, da vice-diretora de Operações e Produção, Elda Falqueto, e de representantes das áreas envolvidas no processo de implementação do novo sistema, a solenidade contou com a presença  da chefe de Gabinete, Vânia Buchmuller, da vice-diretora de Gestão Institucional, Silvia Santos, e do vice-diretor de Gestão do Trabalho, André Cordeiro.

Responsável pelo Serviço de Águas Industriais, vinculado à Vice-diretoria de Operações e Produção (VDOP), Ivaneide Brandão explica que o sistema de água tem um grau elevado nas auditorias de Boas Práticas de Fabricação (BPF), visto que esse elemento tem contato direto com os Insumos utilizados na formulação, o que pode influenciar na qualidade do produto. Dentre os benefícios, o sistema conta com monitoramento online de todos os 34 pontos de utilização que a Produção dispõe atualmente, além de controle de integridade de dados e outros requisitos preconizados na RDC 301 (Resolução da Diretoria Colegiada da Anvisa).

“Trata-se de um sistema prioritário no processo da indústria farmacêutica, uma vez que, sem a água purificada, não há como fabricar o medicamento e lavar os equipamentos dentro dos parâmetros de qualidade exigidos. O sistema anterior atendia aos requisitos, mas, além de bastante antigo, a atual legislação trouxe novas exigências. Hoje, temos um sistema completamente modificado e dentro do que é preconizado pela legislação vigente (RDC 301), com os pontos de uso automatizados e instalação em aço inox 316, por exemplo”, frisa.

Vice-diretora de Operações e Produção, Elda Falqueto explicou que, com a ampliação dos pontos de distribuição, a coleta é feita no próprio ambiente onde o medicamento é produzido, sem a necessidade de deslocamento do operador (Foto: Viviane Oliveira)

Equipes envolvidas – A vice-diretora de Operações e Produção, Elda Falqueto, fez questão de agradecer a todas as áreas envolvidas para tornar o projeto uma realidade. “Além do Serviço de Águas Industriais, responsável pela operacionalização do sistema, a conclusão do projeto só foi possível porque teve a união e o comprometimento de várias áreas de Farmanguinhos. Projetos Industriais atuou na elaboração e execução da obra, o Serviço de Validação vem trabalhando no processo de certificação, além de outras áreas administrativas da unidade, que apoiaram em todas as etapas fundamentais”.

Elda Falqueto destacou ainda que, com o novo sistema, é possível otimizar o trabalho, além de reduzir a possibilidade de falhas. “Temos um sistema de geração e distribuição de água para manter ligado 24 horas por dia para não haver contaminação biológica. Hoje, podemos dizer que estamos no mesmo nível das multinacionais”, ressalta a vice-diretora.

A matéria-prima para a fabricação é comprada de outros laboratórios, mas a água purificada é gerada na própria unidade. Farmanguinhos recebe a água potável e a purifica para garantir a eficiência do processo sem perda de etapas, desperdício de matéria-prima ou atraso na entrega do produto final.

Ao centro, Ivaneide Brandão com a equipe de Águas Industriais, que coordenou todo o processo de implementação do novo sistema, da elaboração à conclusão (Foto: Viviane Oliveira)

Neste sentido, a vice-diretora explicou que esse investimento no parque fabril teve como objetivo principal atender as exigências regulatórias e garantir a certificação em BPF. “Com um sistema de água purificada dentro das condições sanitárias, atendendo os a unidade, evita-se a interrupção do processo produtivo e, consequentemente, eventuais perdas de lote ou atraso na entrega dos medicamentos para o Sistema Único de Saúde (SUS)”.

Benefícios – Ao todo, a implementação do novo sistema demorou pouco mais de um ano para ser concluída. Foi elaborado em 2019 e começou a ser executado já em 2020. Apesar de alguns atrasos decorrentes da pandemia, foi possível concluir sem prejuízos. “O projeto veio justamente para suprir a necessidade de entregar água purificada automaticamente em pontos específicos, principalmente na Produção.  Agora, o operador não precisa mais sair da sala para buscar água em outro ponto. A coleta é feita no próprio ambiente onde o medicamento está sendo produzido”, observa Elda Falqueto.

O aumento da demanda e o funcionamento da fábrica nos três turnos aceleraram a necessidade de aquisição do novo sistema mais robusto e capaz de atender a variedade de linhas produzindo simultaneamente e em diferentes pavimentos. Para se ter uma ideia da dimensão que essa conquista representa, Farmanguinhos saltou de 14 para 34 pontos de distribuição. O tanque anterior tinha capacidade de 2,3 mil litros, o atual é de 7 mil. O sistema anterior gerava mil litros de água purificada por hora, o atual gera 3 mil litros.

A Diretoria de Farmanguinhos com representantes das equipes envolvidas no processo de implementação do sistema de Geração e Distribuição de Água Purificada (Foto: Viviane Oliveira)

O engenheiro Lucas Mattos, que atua no Departamento de Projetos Industriais, elenca outros benefícios a partir da implantação do novo sistema. “O processo foi totalmente automatizado com sistema comandado por painéis. Isso confere mais praticidade e segurança. Se a tubulação estiver passando por sanitização, por exemplo, um sistema computadorizado gerencia essa manutenção e não permite que os pontos sejam abertos, já que a água estará imprópria para uso. Nossa capacidade aumentou substancialmente, conseguindo suprir a fábrica como um todo. Caso tenha pouca água e se for necessário racionar para atender uma demanda alta (com muitos pontos abertos), o sistema define uma prioridade de uso e não permite que novos sejam abertos”, explica.

Questão de qualidade – A qualidade da água adquire algumas funções importantes na indústria farmacêutica. Mesmo sendo considerada própria para o consumo, a água potável ainda possui substâncias que podem comprometer as propriedades das formulações. Com isso, é preciso passar por um sistema purificador a fim de evitar que essas impurezas alterem o resultado final.

Portanto, o processo de purificação da água para uso farmacêutico é baseado na eliminação dessas impurezas físico-químicas, biológicas e microbianas até se obter níveis preestabelecidos pelas autoridades sanitárias, como a Anvisa, por exemplo. O cumprimento das normas está dirigido à diminuição dos riscos, em qualidade e especificidade, associados a cada elemento da cadeia produtiva. A validação e qualificação de sistemas de água é a garantia de que toda essa cadeia não será comprometida e que os produtos finais terão a qualidade assegurada

Segundo o diretor Jorge Mendonça, o investimento visa a atender a legislação sanitária, garantindo a qualidade dos medicamentos e prover sustentabilidade institucional (Foto: Viviane Oliveira)

Farmanguinhos atua no enfrentamento da Aids

A unidade produz e fornece antirretrovirais para o SUS, internaliza novas tecnologias e desenvolve pesquisas com plantas medicinais e síntese química

Além de produzir e fornecer antirretrovirais para o SUS, Farmanguinhos internaliza novas tecnologias e desenvolve pesquisas com plantas medicinais e síntese química para enfrentamento da doença (Arte: André Nogueira)

Em 1º de dezembro é celebrado o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, doença que matou mais de 34,7 milhões de pessoas em todo o mundo desde a sua descoberta em 1981, segundo dados da Unaids. Quarenta anos depois, ainda não se descobriu a cura efetiva da enfermidade, mas muitos são os avanços no tratamento. Para marcar a data, escolhida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para chamar a atenção para esse grave problema de saúde pública, o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) divulga suas ações para enfrentamento da doença.

Além de produzir antirretrovirais usados na terapia e formalizar parcerias para a internalização de novas tecnologias, a unidade se dedica a pesquisar e desenvolver novas formulações a fim de oferecer mais qualidade de vida ao público assistido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O Brasil se tornou referência mundial em sua política de acesso universal a antirretrovirais, e Farmanguinhos é o principal produtor público desta classe de medicamentos que agem na inibição e multiplicação do vírus HIV no organismo e, consequentemente, evita o enfraquecimento do sistema imunológico.

Protagonismo na produção – Há 22 anos, a unidade começava a fabricação do primeiro antirretroviral, a zidovudina, também conhecida como AZT. A partir de então, não deixou de ampliar seu portfólio, que, atualmente, conta com nove produtos. Desses, um é usado na Profilaxia Pré-exposição ao HIV (PrEP): entricitabina+tenofovir; os demais são voltados para tratamento: atazanavir, efavirenz, lamivudina, nevirapina, zidovudina, lamivudina+zidovudina e tenofovir+lamivudina, e o dolutegravir. Fruto de transferência de tecnologia, o dolutegravir beneficia pacientes que apresentaram resistência aos antirretrovirais anteriores ou ainda não haviam iniciado o tratamento. A unidade já fornece o medicamento no SUS enquanto absorve gradualmente a tecnologia para produção própria. Confira no final desta matéria as funções de cada antirretroviral.

Para se ter uma ideia do volume de produção, a previsão de fornecimento para o SUS este ano é de quase 140 milhões de unidades farmacêuticas. Tal protagonismo é possível porque a instituição conta com uma moderna planta fabril, o Complexo Tecnológico de Medicamentos (CTM), com capacidade de produzir até 2,5 bilhões de unidades farmacêuticas por ano.

Um dos antirretrovirais mais utilizados no país, fumarato de tenofovir desoproxila+lamivudina é fruto de Parceria de Desenvolvimento Produtivo (PDP). Atualmente, é totalmente produzido por Farmanguinhos (acervo/Comunicação)

Desenvolvimento de novas tecnologias – Com uma planta multidisciplinar, equipamentos modernos e profissionais qualificados, Farmanguinhos celebra acordos para absorção tecnológica de medicamentos estratégicos para o país.

O diretor Jorge Mendonça explica que, além de ampliar o portfólio e atender melhor as necessidades do SUS, a unidade colabora também para o fortalecimento da indústria farmoquímica nacional, uma vez que os acordos contemplam também a transferência de tecnologia para a produção do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA).

“A atuação de Farmanguinhos no processo de absorção de tecnologias de medicamentos estratégicos, como os antirretrovirais, por exemplo, é fundamental para o Brasil, pois reduz custos e, consequentemente, favorece a ampliação do acesso a tratamentos mais modernos. A internalização dessas novas tecnologias permite ainda diminuir a dependência por medicamentos importados, o que confere maior soberania ao país neste segmento”, frisa o diretor. 

A unidade concluiu neste ano a absorção tecnológica do atazanavir, e tem avançado na internalização da tecnologia do dolutegravir e do antirretroviral composto dolutegravir+lamivudina. Outra importante ação, também fruto de parceria, é a internalização do entricitabina+tenofovir, antirretroviral utilizado na PrEP. O Instituto concluiu a fabricação de três lotes de qualificação da etapa de embalagem primária para solicitar à Anvisa a inclusão desta etapa de fabricação nas instalações da unidade. Outra iniciativa é o desenvolvimento tecnológico da lamivudina de 300 mg, a partir de acordo de cooperação. Futuramente, esse antirretroviral será usado na formulação da Dose Fixa Combinada com o dolutegravir 50 mg.

Uso de plantas medicinais – O Laboratório de Tecnologia para a Biodiversidade em Saúde (TecBio), da Vice-diretoria de Educação, Pesquisa e Inovação (VDEPI), investiga o comportamento do látex liofilizado de uma planta medicinal muito usada popularmente para tratar vários tipos de doenças, algumas graves ou crônicas, dentre as quais a Aids. Coordenada pelo pesquisador Antonio Carlos Siani, com colaboração de um grupo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisa avalia o potencial dos componentes ativos contidos no látex para constituir o Insumo Farmacêutico Ativo Vegetal (IFAV) de um fitoterápico.

Profissionais realizam experimento em um dos laboratórios de Produtos Naturais de Farmanguinhos.
(Foto registrada antes da pandemia de Covid-19 / Alexandre Matos)

Segundo o pesquisador, as moléculas contidas no látex medicinal atuam justamente nas células que estão em estado latente, mais especificamente dentro do núcleo. Tal mecanismo é denominado shock and kill (dar um choque e eliminar, na tradução livre do inglês). As substâncias que possuem essa propriedade, como é o caso do látex, são chamadas de Agentes Reversores de Latência.

Antônio Carlos Siani alerta que, uma vez desenvolvida e aprovada, a terapia a ser estabelecida terá caráter complementar. “O uso não prescindirá do tratamento com antirretrovirais utilizados. Um medicamento que livre as células do vírus latente pode significar a cura da Aids ou, de maneira menos impactante, o estabelecimento de posologias mais amenas para os pacientes atuais”, ressalta.

O laboratório forneceu um lote quimicamente caracterizado para um projeto paralelo entre a UFRJ e o Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz) a fim de verificar a tolerância de primatas não humanos (macaco-rhesus) à ingestão do látex. Os resultados estão sendo analisados. Portanto, ainda não é possível afirmar quando serão iniciados os testes clínicos (em humanos).

Síntese de novas moléculas – Desde 2001, o Laboratório de Síntese de Fármacos da unidade possui uma linha de pesquisa exclusivamente de novos desenvolvimentos para o combate do HIV, o que já resultou em dezenas de artigos e patentes na área nesses 20 anos. O laboratório já realizou diversas sínteses totais de antirretrovirais para o Ministério da Saúde, e identificou inúmeros compostos com atividades biológicas promissoras. A líder do laboratório, Mônica Macedo Bastos, explica que as pesquisas incluem modificações estruturais em fármacos já utilizados na terapia antirretroviral com o objetivo de obter análogos mais ativos, com menos eventos adversos e que sejam capazes de tratar as cepas virais resistentes.

O Laboratório de Síntese de Fármacos possui uma linha de estudo especificamente sobre HIV/Aids
(foto registrada antes da pandemia de Covid-19/Acervo Comunicação)

Neste sentido, o laboratório tem explorado a obtenção de compostos que sejam capazes de tratar a coinfecção HIV e Tuberculose (HIV-TB), que tem se tornado letal, e seu controle é de extrema importância. “Outro desenvolvimento em andamento é um modelo celular de coinfecção HIV-MTb (M. tuberculosis, organismo causador da tuberculose), no qual será possível testar as atividades anti-HIV e anti-MTb de compostos, simultaneamente, tendo assim maior eficácia e economia em ensaios de triagem para obtenção de novos fármacos para tratar a coinfecção HIV-TB.​ Este último está sendo desenvolvido em colaboração com a The Johns Hopkins Medical School, dos Estados Unidos, onde estão sendo estabelecidas as condições ideais de infecção pelo MTb e de coinfecção pelos dois patógenos”, ressalta a pesquisadora. 

Segundo Mônica Bastos, um trabalho desenvolvido com financiamento da Fiocruz, por meio do edital INOVA – Ideias Inovadoras, identificou duas substâncias que foram 100 vezes mais ativas do que o efavirenz, e duas vezes mais potentes do que a etravirina, medicamentos já empregados na terapia antirretroviral. As novas substâncias apresentam melhor perfil de segurança em relação aos fármacos usados como padrão.

Atualmente, esses dois compostos estão sob avaliação farmacocinética, cujos dados fornecerão suporte para os estudos pré-clínicos (em laboratório e com animais). Se os resultados dos estudos de farmacocinética e pré-clínico forem promissores, as etapas de estudo clínico (em humanos) podem iniciar em torno de cinco anos.

Outro antirretroviral bastante utilizado no país, o sulfato de atazanavir é proveniente de PDP, cuja tecnologia foi totalmente absorvida pelo Instituto (Foto: Tatiane Sandes)

Classes de antirretrovirais de Farmanguinhos – Vice-diretor de Gestão da Qualidade e responsável técnico da unidade, Rodrigo Fonseca explica que, atualmente, os antirretrovirais que Farmanguinhos produz são classificados em quatro categorias distintas:

  • Inibidor de Protease – atazanavir;
  • Inibidor de Integrase – dolutegravir
  • Inibidor de transcriptase reversa análogos nucleosídeos (ITRN) – entricitabina+fumarato de tenofovir, lamivudina, fumarato de tenofovir+lamivudina, zidovudina, lamivudina+zidovudina
  • Inibidor de transcriptase reversa não análogos nucleosídeos (ITRNN) – Nevirapina

 

Farmanguinhos avança na transferência de tecnologia do antirretroviral usado na Profilaxia Pré-exposição ao HIV (PrEP)

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